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Quanto custa o regresso da Fórmula 1 à Portugal? PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Monday, 01 September 2025 22:55

Quando na noite de 14 de agosto, o primeiro-ministro Luís Montenegro anunciou que estava em negociações com a Liberty Media para acolher a Formula 1 em Portugal a partir de 2027, todos foram apanhados de surpresa. Não havia rumores nesse sentido, com estes a apostarem mais no regresso a lugares como a Turquia.

 

No anúncio, ele afirmou:

“Há muitas coisas que dependem da ação dos operadores privados, mas nós também temos de fazer a nossa parte, para promover este território, para promover aquilo que temos para oferecer a quem nos visita. Uma das circunstâncias que mais contribui para a promoção do país e também desta região são os grandes eventos.”, começou por falar.

 

“Asseguramos a realização do MotoGP, a prova mãe do motociclismo a nível mundial para 2025 e 2026. Estou em condições de vos dizer que temos tudo pronto para formalizar o regresso da Fórmula 1 ao Algarve no próximo ano de 2027”, continuou. “Estes eventos implicam alguns esforços financeiro por parte do governo, mas tem um retorno quer financeiro direto, quer indireto de promoção que valem sinceramente a pena”, concluiu. 

 

 

Na altura do anúncio, contactou-se a direção do Autódromo do Algarve, para tentarem comentar a notícia, mas o seu diretor, Miguel Praia, não quis comentar: “Desde o tempo do nosso querido Paulo [Pinheiro, o construtor do autódromo, falecido em 2024] que mantemos a porta da Formula 1 aberta. De momento, não podemos acrescentar mais.”, declarou.

 

As reações, do lado do humano comum, foram de revolta. Não pelo anúncio em si, mas pelas circunstâncias: aconteceu a meio de agosto, época de férias em Portugal, aconteceu numa festa de verão do seu partido, o Social-Democrata, e pior: o país estava a meio de uma onda de calor, e estava aflito com dezenas de incêndios florestais, queimando dezenas de milhares de hectares. E ele estava na praia há quase duas semanas, com a família, sem dar sinal de reação quando começaram os primeiros fogos.  

 

E a notícia passou a ser sinal de chacota, quando não era de hostilidade. E quando se soube da quantidade de dinheiro que o Estado estaria disposto a gastar para ter a competição, houve quem dissesse que os 30 a 50 milhões de euros seria melhor gasto em carros de bombeiros e aviões de combate aos fogos.  

 

 

Agora que a poeira se assentou, pode-se afirmar que a Liberty confirmou a existência dessas negociações, mas não avançou muito mais – nem sequer confirmou se regressaria em 2027 ou não. Mas caso aconteça, seria ou para entrar em rotação com outro circuito, ou para substituir Barcelona, que perderá o GP de Espanha em 2026 para Madrid, ou então para o lugar de Zandvoort, que em 2026, acabará o seu atual contrato com a Liberty e já afirmou que não pretende renovar, mostrando que, nem com Max Verstappen no pelotão, e bancadas sempre cheias, querem continuar a acolher a competição.

 
EM QUE CIRCUNSTÂNCIAS?

 
A Formula 1 em Portugal já esteve no Algarve, em 2020 e 2021. Em julho de 2020, em plena pandemia, a Liberty Media procurou pistas para poder encaixar um calendário mínimo de 16 corridas, e a Europa acabou por acolher grande parte delas. Aconteceram corridas duplas no Red Bull Ring e em Silverstone, pistas como Mugello entraram na competição, e houve regressos à Alemanha. E aproveitando a oportunidade, Portugal avançou com um investimento de cinco milhóes de euros, para que Portimão pudesse entrar no calendário. Foi acolhido e no final de outubro, quase 40 mil espectadores estavam no Autódromo do Algarve para ver triunfar Lewis Hamilton, a bordo do seu Mercedes. No inicio de 2021, a mesma coisa aconteceu, mas foi numa fase mais forte da pandemia, suficiente para que a corrida acontecesse sem espectadores.  

 

 

A corrida de regresso fora um sucesso: os bilhetes, apesar de serem caros, esgotaram-se em pouco tempo. E em 2021, apesar do preço ter sido mais alto, 10 milhões de euros, a corrida aconteceu, mesmo com as restrições acima referidas. Mas tudo isto aconteceu com dinheiro privado, e o Estado não se mexeu muito para investir no regeresso da Formula 1, quando o mundo regressou à normalidade.  

 

Agora, para ter a Formula 1 de volta, serão precisos entre 30 a 50 milhões de euros. O valor mais baixo tem a ver com a média que os europeus pagam para ter a competição, e o mais alto tem a ver com os árabes, com os quais a Liberty lhes dá as melhores condições: contratos longos – no mínimo, uma década – e valores bem altos. Por exemplo, o Bahrein poderá estar a dar até 80 milhões de euros para ser a corrida de abertura do campeonato, ou seja, há um extra para ser a prova de abertura – o que explica porque a prova de encerramento é sempre em Abu Dhabi, pelo menos desde 2010.

 

 

Agora, todos sabem que a pista fica situada na região do Algarve, no sul do país. Uma região que é solarenga por ela mesma e aposta bastante no Turismo. Contudo, essa é uma atividade sazonal, e a “época alta” acontece entre os dias 15 de maio e 15 de outubro. O grande desafio dessa região é trazer algo que gere imensas receitas fora dessa “época alta”, que renda mais lucros para os donos de hotéis, restaurantes, e outros serviços.  

 

Ter a Formula 1 no final de abril, como prova de abertura da competição na Europa seria o ideal, a partir de 2027. E se acontecesse, seria a primeira vez, desde 2010, quando acolheram pela última vez o rali de Portugal, antes desta se mover para o norte do país, que teriam uma competição mundial fora da época alta.  

 

Contudo, há riscos: apesar do sitio ser solarengo, o risco de ter chuva em abril é real, e abrigos no Autódromo não são muitos. E claro, prejudicaria a afluência de espectadores para os três dias da corrida. Quem gastaria – ou estaria disposto a gastar entre 350 a 500 euros (se  vier de carro para a pista) para depois apanhar chuva o dia inteiro? É um risco.  

 

 

E também existe um outro problema: quem conhece a região sabe que o Autódromo não está em Portimão cidade, ou arredores, mas num lugar chamado Mexilhoeira Grande, que é cerca de 15 quilómetros mais no interior. E os acessos para lá são escassos e nem sempre em forma. Em 2020, os espectadores queixaram-se da escassez de lugares, mesmo com autocarros (ônibus) a fazerem viagens diretas do centro da cidade para o Autódromo, sem pagar. Poderá ser que alguns desses problemas já estejam resolvidos em 2025, mas para ser sincero, tenho de ser cético em relação a isso.
 
 
APESAR DE TUDO...

 
Apesar de tudo, isto é um investimento. Bom saber que o Estado está agora disposto a ajudar para ter a Formula 1, algo que nunca vi a sério desde a última visita da competição ao Estoril, em 1996. Mesmo sabendo que será um investimento forte, e do qual não terá qualquer lucro, o retorno indireto será muito bom para os cofres locais, especialmente se acontecer numa altura mais indicada, como o início da primavera. Para esses agentes económicos, o que lhes interessa é sobretudo, estabilidade, para poder usar como chamariz de turistas, internacionais e nacionais, para um lugar que sabe acolher da melhor maneira possível. E marcar ainda mais uma nação como Portugal no mapa turístico.  

 

 

Mas isso só acontecerá se Portimão regressar ao calendário.

 

Saudações D’além Mar,

 

Paulo Alexandre Teixeira  

 

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Nota NdG: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Nobres do Grid.

    
Last Updated ( Tuesday, 02 September 2025 08:10 )