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WRC: Entre a competitividade e a crise PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Wednesday, 01 October 2025 21:15

Começo isto com uma pergunta: sabem quando foi a última vez que tivemos um piloto campeão do mundo de ralis onde não participou em todas as provas? A resposta é: em 1993, com Juha Kankkuen, a bordo do seu Toyota Celica Turbo 4WD. Como existia um limite de participações nos regulamentos, o finlandês participou em 10 dos 13 ralis que aconteceram nesse campeonato. E ainda deitou fora um resultado, um quinto lugar no rali de Monte Carlo. Ou seja, só contavam os nove melhores resultados, e quem conseguia as melhores classificações, seria campeão.

 

Contudo, 32 anos depois, em setembro de 2025, altura em que se escrevem estas linhas, os regulamentos permitem que todos pontuem em todos os ralis do campeonato, mas o atual líder, Sebastien Ogier, apenas participou em... oito dos 11 ralis realizados nesta temporada, até agora. A três ralis do final deste campeonato de 2025, ele tem 224 pontos, mais dois que o galês Elfyn Evans, seu companheiro de equipa. E o mais sensacional, no caso de Ogier, são algumas coisas: todos os resultados da temporada são pódios, incluindo cinco vitórias, ele tem 41 anos e nem tinha qualquer intenção de atacar o que poderá ser o seu nono campeonato, igualando o seu compatriota Sebastien Loeb na lista de pilotos com mais campeonatos.

 

Ainda por cima, ele compete a tempo parcial desde 2022, quando tentou a sua sorte na Endurance, incluindo as 24 Horas de Le Mans, onde conseguiu um resultado relativamente modesto.

 

Mas, mais que ver um líder a tempo inteiro, é ver que este é um campeonato bem disputado, um dos mais competitivos dos últimos anos. E não é um duelo entre um e outro piloto, não. É que temos quatro pilotos que, tecnicamente, podem alcançar o título, mais um que pode conseguir, de forma matemática: Ogier, Evans, o finlandês Kalle Rovanpera (203 pontos), o estónio Ott Tanak (181 pontos), e mais distante, mas matematicamente possível, o belga Thierry Neuville (166 pontos). São três pilotos da Toyota, dois da Hyundai.

 

 

E provavelmente, muitos podem nem saber que isto está a acontecer.

Bem sei que o Mundial de Ralis é diferente da Formula 1, IndyCar Series, ou até a Formula E, mas neste momento, em que o calendário está a ser alargado - poderá ser adicionado no futuro com ralis nos Estados Unidos, Nova Zelândia, China e e Indonésia - a competição vive uma era de crise e mudança. A FIA tomou as rédeas da promoção do espetáculo, que era da Red Bull Media, e procura outro promotor, depois desta ter declarado que não continuaria com eles em 2026, irá haver uma nova mudança de regulamentos a partir de 2027, e o que se fala é na contenção de custos, com os carros de ralis a não custarem mais que 450 mil euros.

 

 

Para terem uma ideia: quem quiser ter um carro de Rally1, para correr de forma privada, vale cerca de 1,1 milhões de euros, um Rally2 são cerca de 200 mil, conforme a marca. Toyota, Hyundai, Skoda, Citroen. A Ford não monta Pumas para a categoria Rally2.

 

 

Como vieram, há mais marcas a correr no Rally2 - Skoda e Citroen têm os seus carros - que no Rally1, com duas marcas, e mais uma preparadora, a M-Sport, que adapta os Ford Puma Rally1, e está sub-financiada. Numa era onde todos os grandes grupos de automóveis estão a escolher as suas marcas para cada categoria, desde a Formula 1, à classe Hypercar do Mundial de Endurance, passando pela a Formula E, ver o WRC só com três marcas, em contraste com os anos 80 e 90, onde era normal ter quatro, cinco ou até seis marcas a competirem, entende-se a escassez e onde está realmente a competitividade. Os Rally1 são rápidos, mas caros e complexos que os Rally2, mais simples, mas menos velozes.

 

 

É mais fácil ter e manter carros de Rally2, por vezes, por mais de um ano - os vários campeonatos nacionais espalhados um pouco por todo o mundo estão cheios de carros dessa categoria - pode-se imaginar que o futuro passará por aí. Já foi anunciado que a Lancia, marca do Grupo Stellantis, regressará em 2026 a um local onde foi muito feliz nos últimos 50 anos, desde o Stratos até ao Delta, onde foi campeão por oito vezes, mas o seu último título foi conquistado em 1992. E há notícias de que alguns preparadores poderão estar interessados em construir alguns carros nessa nova categoria, representando marcas novas, mas estão à espera de saber como serão esses novos regulamentos.

 

 

No final do dia, se formos pensar bem, o WRC está numa encruzilhada. Teve muito prestígio no passado e é muito competitivo, com interessados em receber a competição, dos quatro cantos do mundo, mas tem um grande problema: como irá mostrar este produto e cativar os potenciais fãs, da mesma maneira como a Formula 1 cativar novos fãs? Onde andará o "Drive to Survive" do WRC, numa Netflix perto de si? Quem fará um filme, ou documentário, sobre a história do WRC ou dos pilotos que lá passaram, por exemplo?

 

 

E tudo isto acontece quando as estrelas se convergem e estão a dar o mais competitivo final em décadas.  

 

Saudações D’além Mar, 

 

Paulo Alexandre Teixeira  

 

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Nota NdG: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Nobres do Grid.

    
Last Updated ( Monday, 29 September 2025 19:34 )