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O dia em que se impediu o rapto de Enzo Ferrari PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Thursday, 30 October 2025 23:11

Eu creio que muito poucos conhecem esta história. Mas há 50 anos, no dia 25 de outubro, a Formula 1 esteve à beira de um acontecimento que poderia ter abalado a Itália e o automobilismo. Que foi impedido por pouco.

 

Mas já lá vamos: nesse outubro de 1975, a Ferrari estava em festa: depois de onze anos sem títulos, alcançava ambos, os de pilotos e construtores, com uma excelente dupla, constituída pelo austríaco Niki Lauda e pelo suíço Clay Regazzoni. Enzo Ferrari tinha então 77 anos e na sua gestão, vindo da Fiat, estava um jovem Luca de Montezemolo. Dentro da administração estava Piero Lardi, então com 30 anos, a saber os detalhes da equipa, quer na parte automobilística, quer na parte comercial.

 

O que ninguém sabia era que um “gang” de criminosos, a Banda dei Marsigliesi, tinha um plano bem ousado para sacar dinheiro: nada mais, nada menos, que raptar Enzo Ferrari. E esse "rapto do século", não aconteceu por muito pouco.

 

 

A Autosprint italiana contou em meados de outubro o caso, e entrevistou Pino Zaccaria. Quem é ele? Um dos dois polícias que abortou o plano de rapto do “Commendatore” em Modena, nesse dia 25 de outubro, um sábado. E não era um dia qualquer: dali a algumas horas, iria ser apresentado na pista de Fiorano o carro para 1976, com Lauda e Regazzoni presentes.

 

Um contexto histórico: a Itália vivia nos anos 70 aquilo que ficou conhecido como “os anos de chumbo”. Desde o final dos anos 60 que organizações terroristas, quer de extrema-esquerda, quer de extrema-direita, cometiam atentados contra bancos, tribunais e outros departamentos públicos. Em paralelo, organizações criminosas e mafiosas como a N'drangheta, na Calábria, e a Máfia, na Sicília, matavam policiais e magistrados anti-Máfia, para causar o terror entre que trabalhavam na magistratura e impedir as investigações sobre as suas organizações. Raptos para extorsão de dinheiro eram frequentes, e o pior ainda estava para vir: très anos depois deste incidente com Ferrari, na primavera de 1978, as Brigadas Vermelhas raptaram - e assassinaram - o então primeiro-ministro, Aldo Moro, e dois anos mais tarde, a 2 de agosto de 1980, um grupo de extrema-direita colocou uma potente bomba na estação de comboios (trens) de Bolonha, matando 80 pessoas.

 

 

Voltando aos acontecimentos de 1975, Pino Zaccaria, agora reformado, contou à revista italiana os pormenores do que aconteceu nesse dia:

 

Nessa manhã, Enzo Ferrari estava na barbearia de Massimo D'Elia, no Corso Canal Grande, a poucos passos do tribunal. Para o Comendador, era um ritual diário, um hábito agradável, fazer a barba ao seu barbeiro de confiança, que por acaso era também sogro de Franco Gozzi, um dos associados mais próximos de Drake. Ia lá todas as manhãs escoltado pelo seu motorista Dino Tagliazzucchi e pelo seu guarda-costas Valdemaro Valentini, um antigo colega da Polícia Estadual.”

 

Nesse dia, estava em patrulha com o Marechal Natale Ramondino: íamos a pé para o Ministério Público. Quando chegámos em frente à barbearia, reparámos imediatamente num carro suspeito com quatro homens lá dentro. Dois deles saíram então e esperaram debaixo do pórtico, fingindo não se conhecerem, mas um pormenor chamou-me a atenção. Um dos dois homens tinha uma tatuagem na palma da mão esquerda que, tanto quanto sabíamos na altura, indicava pertencer a uma categoria criminal mais elevada. Tratava-se, na verdade, de uma tatuagem que representava os cinco pontos do submundo do crime, que, à data em que ocorreu o episódio, apenas os diretores das prisões de segurança máxima podiam ostentar tal 'marca'.”

 

 

Agimos imediatamente quando vimos que o carro de onde os dois indivíduos tinham saído alguns minutos antes estava a regressar a Corso Canal Grande. Ficou claro para nós que estavam prestes a entrar em ação.

 

Abordámos os dois, empurrando-os em direção à entrada de um edifício para dificultar a sua fuga. Pedimos os seus documentos e os cartões de identidade que mostraram, que eram novinhos em folha, com os nomes de documentos emitidos em Milão quando os dois indivíduos tinham um forte sotaque romano.

 

“[De repente] um dos dois indivíduos tentou escapar. Eu persegui-o e houve uma luta violenta. Ele pontapeou-me algumas vezes, partindo-me as costelas, mas eu impedi-o. Eu era mais pequeno do que ele, mas consegui detê-lo e prendê-lo. Finalmente, um carro-patrulha, chamado por Valentini, interveio. Os dois suspeitos acabaram por ser algemados. Mas o jovem que eu tinha abordado, que mais tarde se descobriu ser um ex-pugilista amador, chegou à esquadra e atirou-se contra uma janela, ferindo-se. Esperava criar condições favoráveis para uma fuga subsequente do hospital onde  poderia ser internado.

 

 

Entretanto, os cúmplices no carro tinham desaparecido. Mais tarde, descobrimos que todos faziam parte de um grupo armado, formado por fugitivos [da prisão], que alegadamente apoiavam os dois criminosos detidos nessa manhã em Modena na tentativa de rapto de Enzo Ferrari. Tinham espingardas no carro. As nossas investigações revelaram posteriormente que o gangue era o grupo armado dos Marselheses, um dos clãs mais temíveis e criminosos daqueles anos, responsável por roubos sangrentos e uma infinidade de raptos.

 

Tudo isto sem o conhecimento de Ferrari, que estava a ter a sua rotina no centro de Modena. Horas depois, como planeado, iria apresentar o carro com Lauda, Regazzoni e toda a imprensa italiana e internacional.

 

 

F4

Contudo, pouco tempo depois, a Questura informou o Drake do plano abortado, a segurança foi reforçada. Soube também quem tinham sido os agentes que impediram o plano, e quis encontrá-los no restaurante Cavallino, em Maranello. Para Zaccaria, o convite para almoçar tinha também outro: o de trabalhar para a Ferrari, cuidar do aparato de segurança.

 

Mas ele recusou o convite: “Recusei a oferta com pesar, embora fosse muito mais rentável do que aquilo que o Estado poderia oferecer. O engenheiro compreendeu e apreciou o meu gesto. Casei-me com a farda e nunca a traí.

 

E foi assim que se soube como estivemos perto de acontecer uma das histórias mais sensacionais da vida de Enzo Ferrari. Contudo, não é a primeira ou a última história sobre planos de rapto do Commendatore, que até depois de morto, esteve sob ameaça: em 2017, a polícia desmantelou um plano para... sequestrar os restos mortais de Enzo Ferrari. A ideia era ir ao cemitério de Modena para tirar o caixão do mausoléu da família, e pedir um resgate à família para que voltasse a ter os seus restos mortais.

 

 

Nem depois de morto ele está em paz! 

 

Saudações D’além Mar, 

 

Paulo Alexandre Teixeira  

 

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Nota NdG: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Nobres do Grid.

    
Last Updated ( Friday, 31 October 2025 11:47 )