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O Regresso do GP de Portugal PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Thursday, 01 January 2026 23:13

1 - UMA CORRIDA ANUNCIADA

 

Quanto o governo português anunciou na terça-feira, 16 de dezembro, que o GP de Portugal de Fórmula 1 regressaria em 2027 no Autódromo do Algarve, num contrato que durará, por agora, duas temporadas, foi feito pelo Ministro da Economia e Turismo, Manuel Castro Almeida, com a presença de Stefano Domenicalli, o CEO da Formula 1, era, apesar de ser inesperado, algo anunciado desde agosto, quando o primeiro-ministro, Luis Montenegro, tinha falado no Algarve, num discurso político, que o governo estava a ter negociações para o regresso da Formula 1 ao Autódromo de Portimão, que tinha recebido a Fórmula 1 em 2020 e 2021, durante a pandemia de CoVid-19 e tinha baralhado o calendário da competição.

 

Na conferência de imprensa de apresentação, o ministro anunciou:

Portugal está de volta ao mapa da Fórmula 1. O Grande Prémio de Portugal de Fórmula 1 terá um impacto direto na atividade econômica, gerando oportunidades ao longo de toda a cadeia de valor — do turismo ao comércio, dos serviços às PME [Pequenas e Médias Empresas] — projetando o país como um destino competitivo e fiável. A realização do Grande Prémio no Algarve reforça a nossa estratégia de desenvolvimento regional, valorizando os territórios e criando oportunidades para as economias locais. Será um evento que, para além do prestígio que traz ao país, reforçará a imagem de Portugal a nível mundial.”, começou por afirmar.

 

 

Esta prova pode trazer a Portugal 200 mil visitantes em cada um dos anos. Entre 150 mil espectadores, mais de metade internacionais, e mais de 50 mil profissionais. Espera-se um impacto económico não inferior a 140 milhões de euros. O custo estimado para o Estado será inferior à receita estimada de impostos associada a estas corridas. Esperam-se 920 milhões de seguidores em cada um dos grandes prémios, ao longo de mais de quatro mil horas de transmissão televisiva”, concluiu o ministro da Economia.

 

Jaime Costa, CEO e Chairman do Autódromo Internacional do Algarve, falou num momento de orgulho para o circuito e para a região. O responsável sublinhou ainda que este regresso só foi possível graças ao apoio contínuo do Governo português e garantiu um espetáculo à altura das expectativas.

 

Estamos entusiasmados por receber novamente a Fórmula 1 em Portugal. O Grande Prémio irá mostrar a excelência do nosso circuito e a paixão dos nossos fãs, dando um forte impulso ao turismo, à região e à comunidade. Este feito só foi possível graças ao apoio contínuo – desde o início – do Governo Português.”, comentou.

 

 

"O traçado único em ‘montanha-russa’ de Portimão irá desafiar os melhores pilotos do mundo e criar um espetáculo que os fãs irão adorar. Estamos ansiosos por criar momentos inesquecíveis e estabelecer novos padrões de excelência dentro e fora da pista.”, concluiu.

 

Este regresso será a quarta passagem da competição a Portugal, que tem uma história prestigiante, tendo acolhido Grandes Prémios em pistas como o da Boavista, no Porto, em Monsanto e Estoril, ambos em Lisboa, ao longo dos 75 anos da modalidade. A primeira edição foi em 1958, na Boavista, numa corrida ganha por Stirling Moss, e acabou em 1960, numa corrida onde Jack Brabham saiu como vencedor. A competição regressou 24 anos depois, no Autódromo do Estoril, como prova de encerramento do campeonato de 1984, onde Alain Prost saiu vencedor e Niki Lauda terminou como campeão pela a mínima das margens: meio ponto.

 

Depois a Fórmula 1 continuou, e em 1985, debaixo de chuva, Ayrton Senna conseguiu a sua primeira vitória na carreira, a bordo de um Lotus-Renault. e no ano seguinte, o melhor foi Nigel Mansell, numa edição marcada pela famosa fotografia dos quatro melhores pilotos de então, candidatos ao título, foi tirado no final da qualificação dessa edição do Grande Prémio.

 

Em 1987, Alain Prost ganhou pela segunda vez, batendo Gerhard Berger e conseguindo pelo meio a sua 28ª vitória, superando Jackie Stewart no piloto com mais vitórias. Ele voltaria a vencer no ano seguinte e em 1993, numa corrida ganha por Michael Schumacher, alcançou o seu quarto título mundial e anunciou a sua retirada.

 

 

Em 1995, David Coulthard triunfou pela primeira vez na sua carreira, antes de Jacques Villeneuve ter vencido, depois de uma ultrapassagem espetacular por fora, na Parabólica, a Michael Schumacher. Essa foi a última vez que a Fórmula 1 esteve no Autódromo do Estoril. O regresso aconteceu 24 anos depois, em 2020, num novo local, o Autódromo de Portimão, e em plena pandemia, e com o calendário a fazer um "reset", apareceram, com Lewis Hamilton a triunfar nas duas edições ali feitas, em 2020 e 2021, este último sem espectadores, devido a maiores restrições em termos de público nas bancadas.

 

Ainda mão se sabe quando será a corrida, pois o calendário provisório só será divulgado a meio de 2026, mas há três chances: no final de agosto, onde era o GP dos Países Baixos, em Zandvoort; "en tandem" com Madrid, que em 2026 será a meio de setembro, ou em maio, também "en tandem", mas com Barcelona.    

2 - QUANTO CUSTA UM GRANDE PRÉMIO?

Agora, vamos ao lado mau. Começamos logo pela resposta à pergunta feita. Custa muito, e o retorno, apesar do otimismo do ministro da Economia, não é bem assim. Alguns dias depois do anúncio, a edição de 19 de dezembro do suplemento Dinheiro Vivo, do Diário de Notícias português disse-o de forma lapidar: os Grandes Prémios são um mau investimento público.

 

 

E no artigo, começam a falar de um estudo de 2024, feito pelos economistas José Castro e António Menezes, da Universidade dos Açores, que afirmam que o impacto é residual, senão negativo, nas regiões europeias. Isso é consolidado por outros estudos, feitos nos últimos anos, por outros economistas europeus. "É, portanto, aconselhável dissociar a relação simbiótica positiva entre grandes eventos desportivos e a economia da região para evitar a má alocação de fundos públicos pelos vários órgãos governamentais", argumentam os economistas Rasmus K. Storm, da Noruega, Tor Georg Jakobsen e Christian Georg Nilsen, ambos da Dinamarca, num estudo feito em 2019 pela Universidade de Copenhaga.

 

E os estudos são sustentados pela prática. Uma das razões porque a Fórmula 1 sai de Ímola, no final de 2024, foi que o Grande Prémio, apesar de ser um sucesso em termos de espectadores - 242 mil no derradeiro final de semana do GP da Emilia-Romagna - os organizadores do GP de Ímola saiam com um prejuízo a rondar os 20 milhões de euros. O facto da FOM ficar com boa parte das receitas - as publicidades e as receitas de televisão - deixa o autódromo com as receitas de bilheteira e pouco mais, apesar de ser o Estado que paga o que tem de pagar à FOM.

 

E com a Europa a pagar pouco mais de metade que, por exemplo, o Golfo, as críticas continuam. E nem é o valor, é a transparência das contas. Todos sabem da enorme opacidade nas receitas da FOM em relação a aquilo que os países pagam a ele, sabendo, mais ou menos, que só por aí, vem boa parte dos 2,2 biliões de dólares que a FOM tem de receitas. Quando na mesma publicação, o diretor-adjunto Nuno Vinha critica o governo português por não dizer quanto gastará nestas duas temporadas - em principio - em que receberá a Fórmula 1, afirma, em editorial:

 

“Numa conferência de imprensa com um quê de triunfal, Manuel Castro Almeida disse que - com base em 'vários estudos'” – essas duas provas trariam um impacto económico nunca inferior a 140 milhões de euros. O montante, confesso, pareceu-me enorme à primeira vista - por razões que se explicam facilmente - mas quando um responsável político se atravessa de forma tão taxativa por um valor, é preciso ir além das idéias pré-concebidas, sacar da máquina de calcular e analisar ao pormenor os números.

 

 

O problema está aqui.

Como cidadão, não discordo de ter um Grande Prémio de F1 em Portugal; como adepto da modalidade (que até acompanhei quando estava na secção de Desporto da Lusa) aplaudo; como contribuinte perguntei-me se seria ou não plausível este retorno de 140 milhões de euros para a nossa economia. Como jornalista, quero ver os estudos que suportam esta decisão.

 

O DN pediu-os ao ministério. O DN insistiu. Mas não os obteve.

E assim, para servir bem os leitores, o DN foi ler alguns dos trabalhos realizados nos últimos anos (o último dos quais em dezembro de 2024) sobre este tema.

 

As conclusões são claras: dificilmente a organização de um Grande Prémio de Fórmula 1 num qualquer país da Europa (é diferente, por exemplo, nas Américas) gera outra coisa que não prejuízo para o erário público, ou no imediato ou nos três ou quatro anos seguintes. Por vezes tem um impacto nulo. Mas nada mais.

 

No final deste editorial, Nuno Vinha sentencia:

Na verdade, o Estado continua, em grande medida, a explicar mal a forma como aplica o dinheiro recolhido aos contribuintes. Seja nos mapas de despesa do Orçamento de Estado; seja na apresentação de medidas de política pública, seja em contratos públicos crípticos, seja na aplicação de fundos europeus sem análises econômico-financeiras. E três ou quatro anos depois, os juízes-conselheiros do Tribunal de Contas fazem uma auditoria a determinada decisão e ficamos todos com a sensação que uma decisão com impacto milionário foi tomada sem dados concretos ou fiáveis. Pelo contrário, foi tomada com base em 'achismos'. Uma fórmula gasta.”

 

Para ficarem com uma ideia de até que ponto isto está premente, o Automóvel Clube de Portugal paga por ano cerca de três milhões de euros para ter o Rali de Portugal, com a ajuda das Câmaras Municipais locais (as Prefeituras, no Brasil) e os impactos económicos do rali nessas pequenas cidades como Arganil, Góis; no centro de Portugal; Fafe ou Lousada, no Norte, são bastante maiores e com lucros para essas prefeituras, e indiretamente, no Estado, através dos impostos cobrados. E um rali de Portugal que atrai mais gente que um Grande Prémio. E a Moto GP, que acontece no mesmo Autódromo Internacional do Algarve, também paga menos e irá atrair mais gente para os três dias que dura o Grande Prémio de Portugal.

 

 

Mas independentemente do prestígio do Grande Prémio, da sensação da "fuga para a frente" deste governo, que gosta de coisas opacas, numa atitude de "pão e circo", sem responder às perguntas pertinentes que pessoas válidas fazem - e com conhecimentos de economia, como se vê - a Fórmula 1 regressará a Portugal. Este governo conseguiu o seu objetivo, os fãs ficarão contentes, e já começaram a juntar dinheiro para ver a edição de 2027. Só querem saber quando é, para poderem planear o seu fim de semana de sonho.

 

E é isso que interessa: as sensações, independentemente dos custos duvidosos, das perguntas pertinentes sem resposta, das aparentes fugas para a frente, das opacidades mais escuras que a tinta negra dos ficheiros Epstein, do rim esquerdo que os fãs terão de vender para poder assistir o Grande Prémio da tribuna da meta. A Fórmula 1 está de volta a Portugal!

 

Bom Ano de 2026 e Saudações D'Além Mar! 

 

Paulo Alexandre Teixeira  

 

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Nota NdG: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Nobres do Grid.

    
Last Updated ( Tuesday, 06 January 2026 17:25 )