
Poucas vezes falo do automobilismo nas minhas bandas, é verdade. Por alturas em que estará a ler estas linhas, é provável que a temporada de Formula 1 esteja a começar, e todos falem do que se passa na Aston Martin, onde o AMR26 aparenta ser um desastre, e Fernando Alonso parece voltar a ter pesadelos com o motor Honda. E se quiser voltar a reclamar do “GP2 Engine”, o GP do Japão deste ano é a 28 de março, portanto... é agora mais cedo. Ver aquelas caras de preocupados no paddock de Shakir, gente como Lawrence Stroll, Adrian Newey e Fernando Alonso, durante os testes coletivos, dá de facto motivos para temer o pior de alguém que sempre arrancou um truque para conseguir um carro fora do vulgar, que dê aquele “unfair advantage” sobre a concorrência. E se calhar, quando começar a ler estas linhas, irá ver em primeira mão até que ponto eles estarão no fundo da grelha e quanto tempo terão para recuperar esta desvantagem. Sabiam que eles foram os únicos que não conseguiram fazer uma simulação de corrida? E que foram os últimos a conseguir fazer cem voltas com o carro?
Mas este mês não quero falar sobre a Aston Martin e a temporada desastrosa que poderá ter. Aliás, confesso que esta altura do mês, é complicado arranjar um assunto para falar por aqui, quer em termos históricos ou de atualidade. Ainda por cima, há cerca de um mês, uma tempestade, de seu nome Kristin, desabou sobre a minha cidade, e apesar da minha casa ter saído relativamente incólume, ainda não tenho televisão e Internet, logo, para trabalhar, tenho umas cinco ou seis horas por dia, um pouco mais durante o final de semana. Estou limitado, digamos assim. Mas no último fim de semana de fevereiro, surgiu a história que queria contar aqui. E é uma história com sabor português, digamos assim. Noah Monteiro é o filho de Tiago Monteiro, que como sabem, foi o último piloto português na Formula 1. Entre 2005 e 2006, correu pela Jordan e Midland, com um resultado famoso: o terceiro lugar no infame GP dos Estados Unidos de 2005, em Indianápolis, onde apenas seis carros participaram, por causa da polémica com os pneus Michelin. Tiago casou-se com uma modelo. Diana Pereira, e teve dois filhos, um deles Noah. Agora com 16 anos – fará 17 a 23 de novembro – Noah está no inicio da sua segunda temporada nos monolugares. Depois de uma temporada razoável em 2025, acabando no oitavo lugar da classificação, sendo o segundo melhor “rookie”, 2026 começa com ele a correr pela Griffin Core, a melhor equipa do pelotão. O primeiro fim de semana da Winter Series foi em Portimão, e tudo indicava que ele iria estar no pelotão da frente. Mas no momento em que era para marcar, teve problemas mecânicos. E por causa disso, ele acabou na 32ª e última posição. Partir de último, numa grelha de partida onde todos estes garotos ainda tem os defeitos do “karting” é um risco grande. Tinha tudo a perder e nada a ganhar. Mas também tinha o contrário: nada a perder e tudo a ganhar. Se bater, bateu, os zero pontos estão garantidos. E todos estes fins de semana tem três corridas para competir. E com isso em mente, o que fez nessa corrida? Uma de recuperação. Na realidade, recuperou... 28 lugares. De 32º e último, acabou na quarta posição, à beira do pódio, numa corrida onde ele foi, definitivamente, o melhor do pelotão. A corrida foi uma exibição marcada pela consistência, ritmo e controlo do piloto nos momentos decisivos, como por exemplo, uma intervenção do safety car a meio da distância. No final, Noah foi ganhando posições de forma progressiva, evitando erros e gerindo o risco em batalhas diretas no pelotão, onde poderia sair tudo a perder.
Não foi épico? Foi interessante. Afinal de contas, tornou-se na “remontada” mais épica da história da Formula 4 espanhola. Mas ver um garoto de 16 anos ganhar 28 lugares não é vulgar. Mais interessante ainda é que na segunda corrida, de formato “sprint”, ele voltou a largar do fundo da grelha e acabou em décimo, pontuando novamente! É filho de piloto, logo, poderá ter alguma espécie de “unfair advantage”? Não creio. Toda a gente sabe que há filhos de pilotos que não saem bem, tornam-se piores que os pais, logo, dinheiro, equipamento e experiência de um professor não chega. É preciso ter talento, e começo a ver que, se calhar, ele poderá ter o estofo para ir o mais acima possível, até à Formula 1, quem sabe.
O que também quero mostrar aqui é que ele parece ser algo que só vi com Max Verstappen: o filho do piloto ser melhor do que o pai. Ainda por cima, como falei mais acima, é que o ponto alto de Tiago Monteiro foi subir ao pódio numa corrida onde apenas seis carros participaram. Isso faz lembrar a história de - não é Formula 1, mas é automobilismo – do finlandês Henri Toivonen que ganhou o rali de Monte Carlo de 1986, depois de uma prova épica, e ter falado, na meta, de que “a honra da familia foi reposta”. É que vinte anos antes, o seu pai, Pauli Toivonen, tinha sido declarado vencedor “na secretaria” depois de ter acabado em quinto num Citroen DS19. E pergunto-me: imagino-o na Formula 1 e a ter talento suficiente para subir a pódios, por seu próprio mérito. Será que dirá que a honra dos Monteiros estará reposta?
A seu tempo: este domingo, na terceira corrida da Winter Series ele acabou a última corrida do fim de semana no segundo lugar, o seu primeiro pódio da temporada, depois de ter andado toda a corrida a lutar pela vitória contra o britânico Nathan Tye, e sai da ronda portuguesa no segundo lugar da classificação geral. Acho que ele, com a sua experiência, se for consistente, poderá ser candidato ao título da competição de Formula 4 mais concorrida de todas, a par da italiana. Saudações D'Além Mar, Paulo Alexandre Teixeira Visite a página do nosso colunista no Facebook Nota NdG: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Nobres do Grid. |