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Entrevista: Tiago Monteiro PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Wednesday, 06 May 2026 20:30

Durante o final de semana da abertura da Fórmula E, no Sambódromo do Anhembi tivemos a presença na pista de grandes nomes do automobilismo mundial como vários ex-pilotos da Fórmula 1. Mas fora da pista também tivemos presentes nomes que marcaram presença nas pistas pelo mundo e um deles que lá estavam era o Português Tiago Monteiro, que teve uma carreira de sucesso competindo na Fórmula 3, Fórmula 3000, 24H de Le Mans, Nissan World Series, WTCC, WTCR e também na Fórmula 1, tornando-se o primeiro (e único) português a subir ao pódio. Nascido na cidade do Porto em 1976, Tiago Monteiro tem “sangue brasileiro”, pois sua mãe nasceu em Belém do Pará, tendo crescido na França, para onde seus pais imigraram quando era criança, começou a carreira de piloto por lá. Após 16 anos correndo de carros de turismo para a Honda, há vários anos ele vem trabalhando – entre outras coisas – com o gerenciamento de carreiras de pilotos. Ele trabalha com António Felix da Costa (e também Norman Nato, além de outros 9 pilotos). Pai de um casal de filhos, tem no mais novo, Noah, alguém seguindo seus passos nas pistas. Entre um compromisso e outro, fez uma “parada nos boxes” para nos dar uma entrevista exclusiva.

 

NdG: Você teve uma carreira exitosa dentro das pistas em diversas categorias do automobilismo e agora tem outra, tanto quando, como manager. Portugal tem uma tradição e uma paixão muito forte pelo Rally. Mesmo você tendo começado a correr na França, o Rally nunca mexeu contigo? Nunca “tocou tua alma”?

 

 Algo que talvez poucas pessoas em geral saibam é que sou filho de mãe brasileira então, sinto-me em parte brasileiro. 

Tiago Monteiro: Na verdade, o meu pai é mais apaixonado pelos rallies do que pelas corridas em circuitos, mas digo a você que foi mais uma questão de oportunidade. Quando comecei a correr as primeiras portas foram abertas mais pelas relações do meu pai com as pessoas na Porsche e como não tinha relações com o pessoal dos rallies (risos) acabei não por lá, mas eu herdei esta paixão e admiração do meu pai pelas competições de rallies, tive a oportunidade de fazer três ou quatro rallies com carros modernos e fiz também com carros clássicos, com um patrocinador meu, onde nos alternamos como piloto e copiloto. Só que minha vida se fez nos circuitos e não se pode fazer tudo, não é? Eu ia fazer o Dakar em 2010, mas foi o ano que o Rally foi cancelado por causa das ameaças terroristas.

 

NdG: Você é um piloto se formou, que se desenvolveu, que treinou na pista e hoje nós vemos os pilotos fazendo horas e mais horas em simuladores e estes cada vez mais próximos da realidade. Como você vê essa mudança de realidade na vida dos pilotos?

 

Tiago Monteiro: A minha geração foi assim “no limite” entre o uso da pista e o uso do simulador. Já existiam simuladores e nós fazíamos treinos neles, mas eles não eram assim tão realistas como são atualmente. Não era algo assim vital para o trabalho. Hoje em dia é uma coisa incrível. Uma geração depois da minha, como o António [Felix da Costa] já foi um piloto que usou e usa muito os simuladores e meu filho ainda mais. O que vemos hoje em dia são os pilotos treinando em simuladores praticamente todos os dias, o que bem aproveitado dá ao piloto um ganho muito importante para se chegar no autódromo com um conhecimento de pista até maior do que o que nós, que treinávamos em pista, que é bem mais caro que usar um simulador. Eu, pessoalmente, não consigo aproveitar um simulador para que seja uma vantagem, mas para quem está habituado desde cedo, aproveita bem este recurso. Na verdade, são fases diferentes da vida, deste crescimento da tecnologia e não podemos ser contra e entendo que seja uma ferramenta obrigatória hoje em dia.

 

NdG: Uma coisa que não havia na época que você correu nas categorias de acesso à Fórmula 1 ou que ao menos não eram estruturadas com são hoje são estas “academias de jovens pilotos”. Você tem um filho se iniciando no automobilismo. Logico que tudo na vida tem pontos positivos e, digamos, contestáveis. Como você vê esses aspectos – com um olhar de manager e com um olhar de piloto – nesta nova forma de se tentar fazer carreira?

 

 Os simuladores são uma realidade para os pilotos atuais e são muito próximo à realidade, bem diferente dos de minha época. 

Tiago Monteiro: Eu fiz parte da Renault Drivers Development entre 2001 e 2003, acho eu, e foi não só uma ajuda grande, financeiramente, como me deu meu primeiro teste em um Fórmula 1 então eu não tenho do que me queixar, mas é claro que alguns são melhores do que outros. Hoje em dia todas as marcas mantém uma academia de pilotos, mas o fato é que nem todas são propriamente vocacionadas para performance, algumas são voltadas para buscar mais dinheiro, infelizmente. Antes eu via os programas de jovens pilotos apoiando os pilotos a 100%. Hoje eu vejo 80% das academias apoiando o piloto em 50%, 30%. O resto é com o piloto. E por isso é um pouco relativo este apoio, mas claro que eles tem interesse em buscar os melhores talentos, mas o comprometimento não é mais como já foi antigamente. Eu acho isso uma pena, mas eles não fazem por razões econômicas já que há pilotos bons que carregam patrocinadores fortes, mas penso ser uma pena não investirem o tanto que se investia em minha época.

 

NdG: Você apresentou sua “carteira de clientes” e é uma carteira bem sucedida. Como foi esse teu processo de passagem dos cockpits, de detrás do volante, para os bastidores?

 

Tiago Monteiro: Eu mal saí da Fórmula 1 e este processo começou. Eu queria muito poder ajudar pilotos portugueses a chegar onde eu cheguei e até irem mais além. Inicialmente o projeto era com portugueses, mas que se expandiu. A ideia é ajudar os pilotos jovens para evitar problemas que tive, erros que cometi e ajuda-los a chegar à Fórmula 1. Eu deixei a Fórmula 1 em 2006 e em 2009 conheci o António [Felix da Costa], quando seu pai me procurou e ele se tornou meu primeiro cliente e estamos juntos e neste período eu ainda pilotava em carros de turismo para a Honda, então posso dizer que foi uma passagem gradual. Há dois anos que não disputo mais competições e dedico-me totalmente ao trabalho como manager, mas não deixo de correr quando consigo tempo. Eu tive uma equipe de GP2 e GP3 durante 5 anos – a Ocean Racing Team, com passagens de brasileiros como Victor Guerim e Sérgio Sette Câmara – e isso me ajudou muito a entender a outra perspectiva e me permitiu ser um profissional bastante preparado para fazer um bom trabalho, entender as preocupações e necessidades dos pilotos e ter 11 pilotos é ter que lidar com 11 pessoas diferentes, personalidades diferentes, pontos de vista diferentes, preocupações diferentes e é preciso entender cada um deles e ter a melhor forma de lidar com eles e alinhar isso com as preocupações e o bom funcionamento da equipe onde ele está. Atualmente eu ainda faço 3 a 5 corridas por ano, para “matar aquele bichinho da adrenalina” (risos), sem as tenções da disputa de um campeonato e dedicar-me aos meus pilotos.

 

NdG: Mas você tem uma coisa que podemos chamar de “desafio especial”, que é ser pai de piloto, algo que brincamos aqui no Brasil que é como ser “mãe de miss”. Como você consegue separar o olho clínico do manager, do piloto experiente do olhar e do sentimento do pai de piloto com o Noah?

 

 Eu fiz parte do programa de jovens pilotos da Renault e eles me levaram a testar um carro de Fórmula 1.

Tiago Monteiro: É um exercício difícil, mas é possível. E acho que sou bastante crítico na análise das capacidades do Noah nos sem pontos fortes e naquilo que ele não é tão bom. Eu consigo trabalhar esses pontos assim como consigo trabalhar nos outros pilotos e acho que consigo mesmo ter essa visão de que em casa ele é meu filho, mas na pista ele é um cliente e eu falo as coisas de forma crítica e não amenizo se tiver algum ponto que seja preciso corrigir. Entretanto, eu estou a procura de alguém para representar meu filho porque eu sei que em chegando para tratar com uma equipe ou conversando com um jornalista, eles sempre vão olhar para mim como o pai do piloto e não como o manager. Mesmo o torcedor no autódromo pode não entender esta separação que eu faço. Então penso que vai ser melhor para ele ter um manager que não seja eu e estou neste trabalho. No entanto, estamos sempre juntos, temos pessoas à nossa volta, ele tem um excelente “driver coach” que é o Sérgio Sette Câmara, o António [Felix da Costa] ajuda muito e é uma pessoa que ele conhece desde pequeno e ele admira muito. Ele tem acompanhamento psicológico, preparador físico e eu quero muito ser só o pai para aproveitar os momentos com ele como meu pai aproveitou comigo.

 

NdG: O brasileiro tem uma coisa em seu senso de humor que as vezes as pessoas não entendem. E nós, brasileiros e portugueses, apesar de falarmos o mesmo idioma, tem aspectos culturais que são bem distintos. Muitos anos atrás os brasileiros, pilotos, jornalistas e mesmo o público, que um dos teus sobrenomes é “Vagaroso” [O Tiago começou a rir] e isso explodiu como piada aqui no Brasil. Como foi que você lidou com os brasileiros fazendo piada com teu sobrenome?

 

Tiago Monteiro: É mesmo isso (risos) os brasileiros fizeram muita piada disso. Quando eu vim correr no Brasil pela primeira vez, em Interlagos na Fórmula 3000 em 2002, teve um sentimento muito especial por minha mãe ser brasileira e tal, quando eles descobriram o “Vagaroso” no meu nome fizeram muita piada. É uma ironia do destino, não? Ter um sobrenome destes e chegar à Fórmula 1 como piloto...

 

NdG: Quem acompanhou sua carreira desde as categorias de base, sabe que de “vagaroso” você não tem nada...

 

Tiago Monteiro: Acho que sim, mas na época as reações foram muito engraçadas.

 

NdG: Gostaríamos de falar um pouco do Noah. Tem a visão e o desejo do pai e tem a análise do Manager e do conhecedor do meio que a Fórmula 1 de hoje. Como você viu o primeiro ano do Noah na F3 Espanha, talvez a 2ª mais competitiva do mundo, e as prespectivas para os anos seguintes?

 

 Ser Manager é um grande desafio. É preciso ser objetivo na análise e separar a empatia. Faço isso com relação a meu filho.

Tiago Monteiro: Acho que ele adaptou-se muito bem à categoria, muito rapidamente aos carros da categoria. A maior diferença da carreira de um piloto é passar de um kart para um carro. A partir daí é um crescente de pais potência, mais grip, mais velocidade, é uma evolução. Do kart para o carro, não. É uma mudança brusca e o Noah na primeira corrida que fez de Fórmula 4 fez a pole position num grid de 38 pilotos. Ao longo do ano fez alguns pódios, venceu algumas provas entre os “rookies”, fex um primeiro ano muito bom no geral. Ele ainda tem coisas a aprender. Ele precisa gerenciar melhor o final de semana, trabalhar nos detalhes, mas isso é algo que se aprende com o tempo. Não é um problema, é algo que vem com o tempo. Alguns pilotos desenvolvem isso um pouco mais rápido que outros, mas é nisso que estamos a trabalhar para que ele atinja este nível profissional. Ele foi o 2° melhor “rookie’ da temporada e ele tinha apenas 15 anos. Ele vai continuar na categoria para 2026 para continuar seu desenvolvimento e vamos seguir nosso planejamento.