
Creio que ninguém esperava em 2026, nestes dias de final de maio, duas coisas: até que ponto iriamos ver tão poucas corridas e intervalos tão grandes, num calendário de (agora) 22 corridas, e alguém tão bom e tão precoce como Andrea Kimi Antonelli. Por estes dias passou mais um aniversário da morte de Alberto Ascari, e lembrei-me de um país tão importante como a Itália, nação da Ferrari, e que teve dezenas de pilotos de Fórmula 1 uma geração antes, e teve de esperar quase uma década até ter em 2025 Andrea Kimi Antonelli, um piloto talentoso. Acho que toda a gente tinha visto o menino de Bolonha, mas se dissessem que em maio de 2026, ele teria quatro vitórias seguidas e comandaria o campeonato com mais de meia centena de pontos sobre George Russell, do qual todos acreditavam que iria ser o campeão deste ano, se calhar afirmaram sintomas de loucura. Mas não, é real. Antonelli ainda não tem 20 anos e está a justificar a aposta que Toto Wolff fez quando ele corria nos karts, em 2019, ou seja, ainda antes de entrar nos monolugares, em 2021, na Formula 4 italiana, pela Prema. E claro, depois da vitória de Russell na Austrália, Antonelli ganhou as quatro corridas seguintes, a começar por Xangai, e depois, Suzuka, Miami e agora, Montreal. E em alguns deles, Antonelli até ganhou corridas “sprint”, mas não a de sábado em Montreal. Contudo, o que ficou na memória foi a batalha entre ambos os pilotos, ao ponto de irem à relva, arriscando danificar os seus carros para ter chances de vitória.
Alguns criticaram, outros aplaudiram, mas Toto Wolff, no final dessa corrida “sprint” de sábado, apesar de ter admoestado os pilotos, não escondeu que gostou do espetáculo: “Foi grande cinema! Luta dura, não só entre os nossos dois, mas também com o Lando [Norris]. Adorei ver aquilo. Se lutas um pouco, podes perder uma corrida. Se isso se prolongar numa corrida, o Norris pode muito bem ganhar.”, começou por afirmar. “Gosto muito destes momentos porque permitem-nos aprender e perguntar: como é que vamos gerir estas situações no futuro? Não queremos perder uma corrida, não queremos chocar uns contra os outros e às vezes é preciso um pequeno momento para nos lembrar dos nossos objetivos. Isto não é particularmente contra um ou outro, mas há uma estrutura que queremos estabelecer e prefiro que isso aconteça numa corrida sprint.”, continuou.
Em relação ao momento de maior descontrole de Kimi Antonelli, Wolff desdramatizava nesse sábado à tarde: “Não queremos começar a corrida cinco com títulos como ‘Guerra das Estrelas’ ou ‘isto está a escalar’, porque não está. É emoção e ele é um piloto jovem. O George [Russell] provavelmente teria feito o mesmo, por isso vamos ver como lidamos com isso.”, concluiu. ---- XXXX ---- Claro, como sabem, no domingo à tarde, a luta entre Russell e Antonelli continuou, e se calhar mais acesa do que muitos julgavam. Apesar de os McLaren terem decidido partir com intermédios, em vez dos “slicks” que grande parte do pelotão escolhia, a longo prazo tinham razão. E se Lando Norris liderou na primeira volta, antes de ser passado pelos Mercedes, a partir dali, a corrida foi um duelo entre os Flechas de Prata, para júbilo dos fãs... e de Toto Wolff. Depois de algumas voltas de Kimi Antonelli, George Russell passou para a frente na volta 6, mas o italiano não queria desistir, chegando até a travar além do limite, para não perder distância sobre o britânico, seu companheiro de equipa.
Parecia que o britânico ficava com o comando da corrida, mas na volta 23, travou demasiado tarde no gancho para ver Antonelli na frente da corrida, e lá ia ele em busca do prejuízo. E na volta seguinte, foi a vez de Antonelli falhar a travagem e Russell aproveitou. Os pilotos andaram a tocar metro a metro, excitando todos os espectadores que assistiam a tudo na pista. E nenhum deles não queria desistir do primeiro lugar! Mesmo! Claro, tudo acabou na volta 30 quando a caixa de velocidades do seu Mercedes acabou por ceder, mas os espectadores bateram palmas a ambos os pilotos, especialmente Antonelli, que ainda não tem 20 anos e já tem quatro vitórias seguidas! E quem anda pelas Internets da vida, tem conhecimento dos “memes” que afirmam ele ser Senna ressuscitado... não é, evidentemente, mas tem imenso talento.
Apesar de todos os elogios – bem merecidos, é preciso que se diga – há quem aconselhe cabeça fria, como Jacques Villeneuve. O campeão de 1997 aconselhou a Antonelli a não ceder na euforia do momento, porque o campeonato ainda mal começou. Com 131 pontos contra os 88 de George Russell, seu companheiro de equipa e segundo classificado da geral, o canadiano afirma que está apenas na sua segunda temporada completa e não pode perder os pés na terra. “Ele precisa de manter a cabeça fria, de não começar a acreditar demasiado no seu próprio hype. Isso é uma coisa muito perigosa de fazer. Quando pensas que és intocável, é aí que os erros acontecem, e tens um abandono, como o [Russell] hoje, ou tens um acidente, perdes 25 pontos, a diferença muda muito, e de repente começas a duvidar de ti próprio.”, começou por afirmar o filho de Gilles Villeneuve durante a pós-corrida em Montreal.
“Esse é o grande risco. Agora mesmo, está a conduzir no limite em cada volta, e ao ponto em que pensas: ‘Wow, está a manter o carro na pista’, as coisas correm bem. Não será sempre assim. Por isso, como vai reagir quando uma coisa correr mal? Essa será a questão-chave. Mas agora mesmo, é mais rápido do que o George. Tem-no controlado. O que é importante para a equipa é que o George acorde um pouco e comece a acreditar em si próprio novamente.”, concluiu. Claro, existirão muitas “cenas dos próximos capítulos” neste duelo interno, mais um dos que existiram ao longo da história do automobilismo - e do qual deu matéria para imensos livros, recomendo a leitura para aqueles que chegaram aqui através do “Drive to Survive” – mas o que muitos esperam que não acontece são as cenas que aconteceram entre Senna e Prost, ou entre Hamilton e Rosberg. Wolff já avisou que terá rédea curta, mas não haverá favoritos. Quer dizer... ele gosta do italiano, mas dará chances ao Russell enquanto for possível. Essa é a verdade. ---- XXXX ---- Quase ao mesmo tempo que tudo isto acontecia, no mesmo continente, em Indianápolis, quase à mesma hora - e quase coincidiram, mas não - as 500 Milhas de Indianápolis. Não foi uma corrida atribulada, cheia de acidentes. Bem pelo contrário: algo aborrecida, tensa. Houve duas situações de bandeiras amarelas por causa da ameaça de chuva. mas como seria de esperar, foram os momentos finais que valeram por toda a corrida. Aliás, bastou volta e meia, depois da amostragem da bandeira verde.
A situação final acontece com Felix Rosenqvist na frente, mas passado por David Malukas e atacado por Pato O'Ward. Eles chegam a ficar lado a lado no inicio da última volta, mas o sueco resistiu e foi em frente para apanhar David Malukas. Aliás, até à entrada da meta, parecia que seria dele o vencedor, mas o sueco da Meyer Shank usou todos os "boosts"para passar e resolver a questão por 0,023. A menor diferença de sempre das 500 Milhas de Indianápolis, uma diferença que faz lembrar 1982, 1992 e 2006. E esse "meio carro" que ficou nas fotografias são... 70 centímetros.
E como em tudo, há a alegria dos vencedores e a tristeza dos vencidos. A imagem que me ficou desse momento foi a de David Malukas, incolsolável, com a sua cabeça encostada a uma mulher - não sei se é a sua namorada, esposa ou mãe - vendo que o seu sonho de imortalidade foi embora por muito, muito pouco, desconhecendo se esta foi a sua melhor chance, porque como sabem, estes pilotos podem andar toda a carreira à procura daquele êxtase do triunfo que poderão nunca alcançar. E entendo perfeitamente a sua agonia, afinal de contas, é a segunda vez seguida que este filho de lituanos fica à porta do triunfo e vê os outros a comemorarem. O automobilismo também é assim. Só espero que Malukas seja um futuro vencedor das 500 Milhas. É jovem e está na Penske, uma das melhores equipas do pelotão.
E foram estas as minhas notas de maio, num desporto sempre fascinante. Saudações D’além Mar, Paulo Alexandre Teixeira Visite a página do nosso colunista no Facebook Nota NdG: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Nobres do Grid. |