Mais que um nome que vimos e ouvimos tanto nos últimos anos, com esperanças e frustrações por parte dos fãs de automobilismo no Brasil que tanto queriam vê-lo pilotando na Fórmula 1 Felipe Drugovich redirecionou sua carreira no ano passado depois de escalar com sucesso – em alguns casos avassalador – como na Fórmula 4 Alemã, na Eurofórmula e no ano do título da Fórmula 2, contratado pela Aston Martin, equipe que tem um piloto que é o filho do dono (Lance Stroll) e o outro um dos maiores da história (Fernando Alonso). Depois de alguns testes em outras categorias e corridas de Endurance, assinou contrato com a equipe Andretti e está na disputa do campeonato 2025/26 da Fórmula E. Em São Paulo nós conversamos e fizemos as fotos. A agenda impossível para um astro local nos levou a fazer a entrevista pela internet. NdG: Felipe, grande parte das perguntas que temos aqui vieram dos nossos leitores e uma das coisas que eles sempre pedem é que o piloto fale um pouco dele pessoa, não do piloto. O que você pode falar do Felipe pra gente? Felipe Drugovich: Vamos ver como eu me saio fazendo uma apresentação minha assim para vocês. Eu sou paranaense, natural de Maringá, uma cidade que eu adoro, onde me sinto muito bem, não só por minha família estar lá, mas pela cidade ser um lugar muito bom pra se viver. Eu morei lá até meus 13 anos de idade, depois indo morar na Itália para correr de kart. Sempre que vou para o Brasil, coisa de umas 5 vezes por ano faço questão de ir pra lá, ficar com minha família, curtir a cidade. Se Maringá fosse na Europa seria a melhor coisa do mundo pra mim. NdG: Você foi com 13 anos correr de kart na Itália, mas quem foi que te colocou pela primeira vez num kart? Minha família sempre curtiu automobilismo, meu tio foi campeão da F. Truck. Um dia eu pedi para andar de kart... e não parei mais.
Felipe Drugovich: Minha família sempre curtiu muito o automobilismo. Meu pai, meus tios (Nota do NdG: Felipe é sobrinho de Oswaldo Drugovich Jr. Bicampeão da Fórmula Truck nos anos 90), todos. Foi com meu tio que comecei a assistir corridas de Fórmula 1 nos domingos, mas eles nunca me pediram para fazer nada, até que um dia eu disse que queria testar um kart e eles me levaram para Campo Mourão, cidade próxima de Maringá, e depois de andar um dia inteiro eu voltei bem empolgado, falei pra minha mãe como eu tinha gostado e daí ela já entendeu que aquele ia ser o meu caminho. NdG: Você andou muito bem no kart, mas – digamos assim – foi na Fórmula 4 alemã que você explodiu, ganhou quase tudo. Quando isso acontece, tem gente observando vocês, os “olheiros” das equipes de categorias maiores? O que surgiu dali? Teve aquele cara pra olhar você e pensar “esse moleque aí é diferente”? Felipe Drugovich: Olha, eu acho que a coisa é muito mais tranquila do que todo mundo acha. Que você se destaca e aparecem mil pessoas para saber quem você é. O europeu é um povo mais frio e você correndo na Europa eles vão olhar você se você está ganhando, vai haver algum contato de outras equipes, de categorias diferentes, mas não num clima de euforia. Em 2016/2017 ainda não tinha aquela coisa de academia de pilotos indo buscar o piloto ainda no início como é hoje em alguns casos e na maior parte das vezes, para você entrar em uma academia de pilotos você só entrava pagando. 2 ou 3 pilotos no mundo inteiro é que tinham a oportunidade de ter um tratamento diferenciado. Essa época foi também um momento meio difícil para o automobilismo. NdG: Certo, mas depois da Fórmula 4 alemã você foi para a Eurofórmula e ganhou quase tudo novamente. Foram 14 vitórias em 16 corridas. Isso certamente também chamou atenção, mas como foram as escolhas? O que você tinha de possibilidades?  Quendo um piloto está vencendo na base ele aparece, mas não é aquele euforia em torno dele. O europeu é mais frio com isso.
Felipe Drugovich: Depois de ganhar o Mazda F. 2000 eu tinha duas opções. A Fórmula 3 FIA ou a Eurofórmula. A escolha da Eurofórmula foi basicamente por questão financeira, era menos da metade do valor para fazer a temporada na Eurofórmula e conquistei o título, foi um ano muito bom, onde tudo deu certo. A equipe era boa, o carro era bom e os resultados vieram. Depois deste ano, se eu quisesse continuar correndo teria que ir para a Fórmula 3. NdG: Depois do que você fez nos dois anos anteriores nossa expectativa era enorme aqui no Brasil sobre o que você poderia fazer na Fórmula 3 e foi um ano – para quem viu de fora – aparentemente muito complicado. As coisas não aconteciam. O que aconteceu naquele ano? Felipe Drugovich: Foi um ano bem complicado. Éramos três pilotos na Carlin e eu fui o melhor dos três no final do campeonato e fui o 16°. Isso é bem autoexplicativo. Infelizmente não havia muito o que fazer. A equipe era muito perdida, eles não encontraram em nenhum momento uma linha de trabalho e a gente tentou de tudo para ver se achava um caminho, mas não conseguimos. Mas isso faz parte da vida de um piloto, ter um ano difícil, onde as coisas não funcionam. Além do que, eram só 8 finais de semana de corrida e não havia treinos entre eles, era só o trabalho de pista daquele final de semana e isso deixa muito difícil para se virar o jogo. Desenvolver um carro que precisa de trabalho tendo só 8 finais de semana de corrida é muito difícil. NdG: O que se vê normalmente é um piloto que estreou numa nova categoria e não conseguiu ir muito bem fazer um segundo ano nesta categoria e buscar uma evolução, mas você partiu para o passo seguinte, a Fórmula 2, e isso surpreendeu quem apenas assistia as corridas e mesmo alguns que acompanhavam as categorias de base mais de perto. Qual foi a estratégia para essa tomada de decisão? Felipe Drugovich: Isso foi realmente uma coisa que não estava no meu radar até então e na minha cabeça eu ia fazer outro ano de Fórmula 3, mas o pessoal que cuidava da minha carreira na época falou que se a gente tivesse oportunidade de ir para a Fórmula 2 seria legal, que o meu estilo de guiada era mais parecido com o de um carro da Fórmula 2, e eu sabia que estava no mesmo nível do pessoal que estava subindo para a Fórmula 2. Além disso, qual era o sentido de fazer mais um ano num campeonato em que eu ia ter que tentar me provar de novo e que, no final das contas, só seria possível ganhar estando na Prema... então fomos ver o que havia de possibilidades para se subir para a Fórmula 2 e a oportunidade apareceu na MP Motorsport, eles me ajudaram muito e foi a melhor coisa que eu fiz. NdG: E no primeiro ano você ganhou 3 corridas... O ano na F3 foi bem difícil. A equipe estava perdida. Fui o melhor do time e terminei em 16°. Ir para a F2 foi uma mudança correta.
Felipe Drugovich: E era uma Fórmula 2 diferente naquele ano. Até então a categoria tinha muita diferença entre os carros e eram poucas as equipes que venciam, não sei exatamente porque. No meu primeiro ano foi um ano de mudança, de virada de jogo na categoria para muitas equipes, que começaram a ter um pouco mais de grana, investir mais, mudar o jogo e vencer corridas. Eu cheguei numa equipe que no ano anterior fez pouquíssimos pontos no campeonato e se eu fizesse alguns pontos já seria bom pra mim. Na primeira corrida em fui 2° na classificação e isso já me fez começar a mudar as minhas expectativas. Foi uma experiência excelente e valeu muito a pena ter subido de categoria. NdG: Foi nessa época que o Amir [Nasr, tio de Felipe Nasr] “entrou na sua vida”? Felipe Drugovich: Não... o Amir é um amigo da família desde há muito tempo, sempre me ajudou nas decisões, meu tio conhece ele desde antes de eu nascer, o primeiro kart foi um presente dele, que era um kart do Felipe Nasr, ele sempre deu conselhos na minha carreira e foi uma coisa bem natural nossa relação, mas ele só passou a trabalhar pra valer com as coisas da minha carreira quando eu fui pra Fórmula 2, na verdade ele passou a me acompanhar em todas as corridas a partir do meu segundo ano na categoria. NdG: Você comentou no início da entrevista sobre os programas de jovens pilotos. Esses programas que as equipes foram criando e, vendo de fora, porque você não fez parte de nenhum desses programas para escalar as categorias de base, até onde você vê o que há de positivo e de negativo na existência deles? O programas de jovens pilotos na maioria das vezes você tem que pagar para entrar e pode ficar preso, sem opções para negociar.
Felipe Drugovich: As coisas mudam de ano pra ano. As qualidades que você tenha num ano pode não ser as qualidades que se buscam no ano seguinte, e quando eu estava crescendo nas categorias de base não fazia muito sentido fazer parte de uma dessas academias. Na maior parte dos casos você tinha que pagar para estar nelas e para mim já complicava porque eu não tinha grana pra isso, mas também tinha a situação de você ficar preso e não ter como negociar teu futuro. A Fórmula 1 teve uma época muito difícil, que não tinha muita movimentação de pilotos e para conseguir um lugar precisava levar muito dinheiro de patrocínio. Você corria o risco também de ficar preso à uma equipe e isso não fazia muito sentido pra mim. Eu acho que fiz a escolha correta fazendo meu caminho até a Fórmula 2 e consegui negociar bem e depois tomar o caminho que eu poderia seguir dali pra frente. NdG: Nestas opções de caminho você fez testes não só na Fórmula E como na Fórmula Indy, inclusive pela equipe campeã e virou tempos mais rápidos que o tricampeão da categoria, Alex Palou. O que faltou para você “pular de continente” e dar uma guinada brusca na carreira? Felipe Drugovich: Muita gente fala que eu tive oportunidade de ir para a Ganassi desde de 2022 e na verdade, eu não tive. Tivemos conversas, sim, é verdade, mas oportunidade mesmo não houve. Eu testei com eles em 2024, mas aí veio a introdução desse sistema deles no campeonato que basicamente limitou as equipes a terem três carros e eles já tinham os três pilotos, com o Alex Palou, o Scott Dixon e o Kiffyn Simpson, que eles precisam, que apoia a equipe, e assim não teve espaço. Foi um bom contato, tive também outros contatos, busquei outras maneiras, mas não vale apena entra em um campeonato como este, tentando achar patrocínio e ir para uma equipe com pouca ou sem chance de vitória não fazia sentido. Só valeria mesmo a pena se fosse para assinar com uma equipe vencedora. Como não havia espaço lá na Ganassi, não fazia sentido fazia sentido insistir na categoria, além do que, é um campeonato muito perigoso... NdG: Perigoso em que sentido? Por causa dos circuitos ovais e o risco que eles oferecem com o muro ali colado na pista? Ou o risco de não ter sucesso e fechar portas fora dos EUA caso não tenha resultados? Felipe Drugovich: Não tem como esconder que o risco nos ovais é muito mais alto. Por isso que os pilotos, ao menos os tops, são muito bem pagos. São 6 ou 7 corridas em ovais com o risco elevado. Ninguém escolhe ir pra Fórmula Indy porque o carro é legal. Ele tem que se sentir bem andando em circuitos ovais e no meu caso, não faria nenhum sentido ir para lá e ficar andando do meio do grid pra trás. NdG: Nos últimos anos você andou disputando algumas corridas de endurance, andando bem, mas um carro dividido entre dois ou três pilotos. Mesmo assim, teu desempenho chamou atenção. O WEC, em algum momento, surgiu como opção concreta de estruturar uma carreira?  Corridas de endurance são legais. Correr em Le Mans é incrível, mas eu gosto mais de ter um carro só para mim, com meu time.
Felipe Drugovich: Sim, principalmente para esta temporada de 2026, mas a maioria das equipes queria prioridade e eu teria conflito de dadas. É difícil conciliar dois programas em categorias top e eu fiz a opção pela Fórmula E que é um campeonato muito bom, muito disputado e mesmo que ainda haja algum preconceito em um lugar ou outro, é um campeonato mundial, pra começar, é um campeonato muito forte, com pilotos de nível muito alto e nos dois, três anos em que fiz corridas de endurance, que eu gostei muito, uma coisa que senti falta foi ter um carro só pra mim, com o meu acerto, com uma equipe trabalhando comigo, eu me superar e não ter que depender de outro piloto no carro, seja para o bem ou para o mal, e nas corridas de endurance a gente tem que lidar com situações do tipo, cumprir uma determinada tarefa enquanto estiver na pista ou depender da performance do companheiro, que por vezes é ótimo, ou você tem que “salvar” a equipe inteira... então eu sentia falta de ter a responsabilidade só comigo. Se eu errasse, o erro seria meu. O outro lado é que a Fórmula E é um carro de fórmula e foi neste tipo de carros que eu me formei como piloto, que eu cresci dentro deles e é mais divertido de guiar. Eu não excluí o WEC da minha vida, espero poder disputar corridas por lá, principalmente Le Mans, que é a melhor corrida que tem, mas como campeonato, hoje estou totalmente focado na Fórmula E, para vencer corridas, ter uma carreira longa aqui porque eu vejo a categoria como um futuro já presente e com um futuro ainda mais promissor. Na próxima temporada teremos um novo carro e promete deixar a Fórmula E ainda melhor. NdG: Esse ano você está na sua primeira temporada completa. No ano passado você correu na Alemanha. Qual está sendo o maior desafio para você na Fórmula E? Felipe Drugovich: Dentro da categoria, o que eu já achava que seria meu desafio é “ler” a corrida de dentro do carro, aquilo que os pilotos precisam saber, de em duas voltas entender como a corrida se apresenta, como os demais pilotos estão reagindo e você poder tirar o máximo de benefícios em relação àquela corrida, e isso é algo que eu ainda estou aprendendo a fazer na Fórmula E, que não é uma categoria igual as outras, também preciso entender os pneus um pouquinho melhor e tirar o máximo deles, especialmente em regime de classificação, também preciso conhecer melhor o carro da Andretti, que é diferente dos carros que eu andei na categoria, mas é um carro que eu tive um bom ‘feeling’ desde o começo. É um carro rápido, mas é um carro muito diferente de guiar não dá para chegar numa equipe e querer mudar tudo, introduzir um setup de carro que eu gosto, até desviando do caminho do outro carro, principalmente porque o meu companheiro de equipe está andando bem e sendo um novato na categoria, tenho muita coisa para processar e não dá para dar um passo maior que a perna e logicamente estou empolgado por estar na Andretti e tenho certeza que vou crescer. É um processo normal chegar numa equipe nova e aprender coisas diferentes e com isso chegar num ótimo nível. NdG: Como você se vê num futuro? Que perspectivas, planos, passam por sua cabeça? Onde você se vê nos próximos anos? Alguma outra categoria ainda tem chance de arrebatar você ou você acha que teu futuro será construído na Fórmula E? Muita gente fala que eu tive oportunidade de assinar com a Ganassi e ir para a F. Indy, mas não foi bem isso que aconteceu.
Felipe Drugovich: Por enquanto eu estou 100% focado na Fórmula E. É a categoria é o campeonato que tenho pela frente para disputar e que estou aproveitando muito cada momento. É um campeonato muito bem construído, muito bem organizado e com perspectivas muito boas para o futuro. Meu plano é permanecer na Fórmula E, me desenvolver e crescer na categoria. No ano que vem teremos um carro novo e isso será um desafio para todos e ainda um ponto de interrogação sobre como vai ficar a competitividade, mas é opinião comum que a categoria vai crescer com o GEN4. Então, o plano é crescer na Fórmula E e ser campeão mundial.
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