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Frente a Frente com Nelson Piquet PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Monday, 05 October 2015 18:20

O personagem mundial Nelson Piquet Souto Maior dispensa qualquer apresentação.

 

Sem ‘rabo preso’ com ninguém, nenhuma ‘papa na língua’ e uma personalidade que ‘incomoda’ quem prega, preza – mesmo que nem sempre pratique – o ‘politicamente correto’, o Tricampeão Mundial de Fórmula 1 é o tipo da figura pública do ‘ame ou odeie’, não tem ‘mais ou menos’.

 

Nelson Piquet sempre passou – ao menos através do que lemos ou vimos da nossa mídia – a imagem de ‘pouco paciente’ com a imprensa. Na verdade, não se trata de uma questão de ‘paciência’, mas de se saber a forma e a hora para conseguir conversar com ele com um gravador ligado e uma máquina fotográfica nas mãos.

 

Por alguns anos o Site dos Nobres do Grid veio preparando uma entrevista para fazer com Nelson Piquet... uma entrevista diferente, fugindo do lugar comum, daquelas perguntas que ele já respondeu tantas vezes e que não tinha mais ‘saco’ pra responder.

 

Por motivos diversos, a possibilidade de torná-la uma realidade nunca acontecia e o tempo foi passando, passando e as perguntas foram aumentando e tornando o desafio cada vez maior: será que ele teria a tal ‘paciência’ para responder tantas perguntas para um amador?

 

Foi em Curitiba, durante um evento da VICAR em que haveria uma corrida da Fórmula 3, no início de agosto, que veio a oportunidade de ‘tentarmos’ conseguir alguns minutos de atenção de um dos maiores pilotos da história da Fórmula 1... e ficou tão bom que, ao invés de uma ‘entrevista’, nossa conversa entrou para especialíssima Seção “Frente a Frente” e presente de aniversário do site para nossos leitores.

 

Nelson Piquet tem acompanhado de perto os passos de Pedro e esta proximidade foi a oportunidade que precisávamos.

 

A entrevista começou com o gravador desligado – para assustar o entrevistador.

 

Quando foi feito o primeiro contato, do tipo “oi Nelson, tudo bem?”, ele mostrou-se bem acessível. Falei sobre a ideia, algo que um amigo comum, Jovino Benevenuto Coelho, já tinha levado para ele lá em Brasília e a quem muito devemos pelo sucesso deste artigo, deu a partida. Agora era torcer para o Pedro fazer uma corridaça, sem problemas e o ‘Homem’ estar de bom humor... combinamos pra conversar depois da corrida do sábado!

 

Vitória, festa, sorrisos, tudo beleza! Atmosfera perfeita! Nelson rindo, contando histórias, mostrando piadas e fotos via smartphone para uma rodinha onde estavam dois conhecidos dele e eu. Entrevistador calado... esperando ele dar o ‘sinal verde’ para ligarmos o gravador... quando o ‘Homem’ disparou:

 

- “Bom, fala aí, qual é essa de Nobres do Grid? Quem está ‘por trás’ disso?”

 

Daí apresentamos o que era o Projeto dos Nobres do Grid, para quem ele foi criado, o alcance do projeto, uma visão os artigos e que era um projeto feito por voluntários, que éramos 19 pessoas, inclusive três jornalistas...

 

- “Jornalistas? Que jornalistas?”

 

Ficou subliminarmente entendido que se tivéssemos algum jornalista ‘não muito bem quisto’, o papo iria acabar ali. Apresentamos então o paulista Alexandre Bianchini, o português Paulo Alexandre Teixeira, o cearense Robério Lessa, e onde eles trabalhavam...

 

- “Tá bom, vamos sentar ali.” (fomos para um canto do ‘box-tenda’ da Cesário Fórmula)... e o gravador foi ligado.

 

NdG: Nelson, antes de tudo, obrigado e esperamos que com o nosso amadorismo, já que somos em sua maioria amadores, por favor, dê um desconto se as perguntas não forem boas... mas pra começar tudo, precisamos voltar até 1991. Muito se falava na imprensa sobre seu destino para a temporada de 1992. O que havia de conversas? Havia conversas?

 

Nelson Piquet: Os caras escrevem o que querem, nem perguntam nada e já vão escrevendo. O que já escreveram de merda dizendo que eu tinha dito isso e aquilo... não tinha conversa séria com ninguém! Eu estava há 15 anos fora de casa, viajando o mundo todo com a Fórmula 1... eu queria ir pra casa. A Benetton não ia topar manter o contrato do jeito que estava. Tiveram que me pagar muito dinheiro em 1990 e 1991. Eu já estava resolvido a vir embora pra casa... eu não estava nem interessado no que eles tinham pra dizer.

 

NdG: Enquanto você ainda estava correndo, você começou a pensar em fazer algo depois de parar, investir em algo? Nos anos 80 você apareceu fazendo um comercial da FAET, fábrica de ventiladores e falava-se na época que você era sócio da fábrica. Foi o primeiro negócio?

 

Nelson Piquet: Não, eu era só o ‘garoto propaganda’, nunca fui sócio ou tive qualquer participação na empresa.

 

NdG: Você já deu várias entrevistas sobre a Autotrac e você foi o pioneiro neste tipo de serviço aqui no Brasil. Num país tão instável como o nosso, como foi o processo de avaliação de riscos do negócio?

 

Os caras escrevem muita merda. Não tinha conversa séria com ninguém. Eu estava na Europa há 15 anos, queria ir pra casa!

 

Nelson Piquet: Não teve isso não... eu descobri o negócio lá nos Estados Unidos e era muito óbvio que isso daria certo no Brasil. São grandes distâncias de se percorrer e 80% do que se transporta no Brasil é feito por caminhão. Não tinha como não funcionar! Agora, outra coisa é fazer as coisas no Brasil. Que o produto era bom e que tinha tudo pra dar certo como deu é uma coisa, agora que o país é uma merda e que é difícil de trabalhar aqui, não há dúvidas.

 

NdG: Além deste, que hoje é teu principal negócio, teu meio de vida, você também investiu como empresário no automobilismo. Com a ESPRON, uma excelente categoria e com a gestão de autódromos. Podemos falar sobre a ESPRON?

 

Nelson Piquet: Quando eu fui conhecer o Pedro Virgínio lá no Ceará e vi tudo o que ele fazia eu vi que poderia fazer algo para o automobilismo, não como uma ‘coisa empresarial’, mas para fazer algo que pudesse ir pra frente. Uma categoria com custo baixo, com um carro bem construído. A gente fez até preliminar da Fórmula 1. Eu fiquei à frente da categoria por um bom tempo, depois eu fui cuidar dos outros negócios, coisas da Autotrac... a categoria ficou ativa e bem por cinco anos, depois ela ficou por conta do pessoal que corria, lá no Autódromo de Brasília.

 

NdG: Você teve também projetos de gestão de autódromos, com Jacarepaguá e Brasília. Eram projetos semelhantes ou diferentes? Qual era o propósito?

 

Nelson Piquet: O de Jacarepaguá nem chegou a acontecer. Tivemos o início de uma tentativa de trabalho, mas logo desistimos. Agora, Brasília eu tive a gestão durante 10 anos e foi uma coisa legal, muito bacana. Foi o tempo em que Brasília teve o melhor automobilismo regional e muita coisa foi pra lá. No final, a verdade é que me encheu o saco e deixei prá lá.

 

NdG: Dentro do contrato de arrendamento do autódromo, o que é que vocês podiam fazer?

 

Nelson Piquet: Não tinha “vocês”. Era eu e eu! Em termos de competição a gente podia fazer tudo, mas não podia mudar nada, construir nada, era só corrida e o que se pudesse fazer. Eu tinha um prejuízo mensal entre 30 e 40 mil reais em valores de hoje todos os meses. Autódromo não dá dinheiro. Não tem jeito. Você vai alugar o autódromo para fazer automobilismo local por mil e quinhentos reais, isso não paga o custo que você tem lá dentro. Eu fiz aquilo por amor. Amor ao automobilismo e amor a Brasília, porque eu queria fazer alguma coisa de bom por lá.

 

NdG: Nós estamos num autódromo privado (Em Curitiba) e você esteve recentemente com o Pedro em uma corrida no Velopark. Aquele modelo de centro de atividades integrada poderia ser uma forma, uma ideia para se fazer em outros lugares, por investidores privados?

 

Nos 10 anos que arrendei o autódromo de Brasília eu só podia fazer corrida. Tinha um prejuízo de 30 a 40 mil por mês. Fiz por amor.

 

Nelson Piquet: Velopark? Aquilo lá perto de Porto Alegre? Aquilo lá é uma merda! Aquilo é uma pista de kart que os caras correm de carro de corrida. Tem cinco curvas... aquilo lá não é um autódromo, é outra coisa. Poderia ter sido planejado de se fazer realmente um autódromo, mas o que está lá é um lixo. A ideia é o seguinte: autódromo é o maior veículo de publicidade para uma cidade. Tem que ser feito e mantido pelo governo, pela prefeitura. Se você vai a Silverstone, tem dois mil habitantes. Long Beach? Tem cinco mil habitantes. Dois lugares que são conhecidos no mundo inteiro por causa do automobilismo. No dia que essas porras destes políticos de merda entenderem que isso é realidade, vão brigar pra construir autódromo! O prefeito lá de Cascavel entendeu isso e reformou o autódromo de lá todinho. Goiânia entendeu isso e fez uma puta reforma, deixando o autódromo novo. Tem que ter a estrutura do governo pra manter e ser bem utilizado para a cidade.

 

NdG: Falando sobre qualidade dos circuitos, você esteve em algumas etapas com o Nelson Ângelo na Inglaterra quando ele correu na F3. Fala-se muito mal dos autódromos do Brasil, mas de lá só vemos Silverstone. Dá para traçar um parâmetro entre nossos autódromos regionais e os da Inglaterra, como Snerterton, Truxon e outros?

 

Nelson Piquet: Não têm muita diferença se formos ver os autódromos onde a Fórmula 1 não corre. O problema é que aqui tem quantos? Quatro? Cinco? Lá na Inglaterra tem 15 ou 20! Aquilo é uma ilha, pequena. O território da Grã Bretanha é do tamanho do estado do Ceará. Olha o Brasil o tamanho que é... tinha que ter pelo menos os 15 ou 20 de lá!

 

NdG: Quando esteve mais envolvido com automobilismo, você chegou a criar uma Liga, a LIA. No futebol europeu vemos que ele funciona com ligas. Não é a Federação que cuida do esporte praticado. Este seria um caminho para se fazer um automobilismo melhor por aqui?

 

Nelson Piquet: Não importa se é liga ou federação quem faça. O que precisa é mudar as regras do negócio. O presidente tem que ser votado pelos pilotos, não pelos clubes. Você poder abrir o clube que você quiser e organizar suas corridas. O problema é que aqui é uma puta de uma máfia. Preste atenção: Federação, Confederação e Política, só atrai gente ruim! Essa é que é a verdade. Não tem jeito. Os caras vão ali pra ganhar dinheiro. Os caras não estão lá pelo esporte, estão lá, não entendem de nada e só fazem merda! A verdade é essa, nua e crua. O que é que esse [Cleyton] Pinteiro entende de automobilismo? Fica aí, fazendo merda o tempo todo. É um perdido. Não pede ajuda, não faz nada... o Brasil é um país rico, que vende carro adoidado, que se você faz um lobby com uns deputados para criar uma lei para pegar uma porcentagem ‘deste tamanhinho’ da fabricação dos carros no Brasil pra investir em automobilismo, em fazer categoria de base, criar formas de melhorar o esporte, o automobilismo ia crescer. Mas por que não fazem isso? Porque se fizer vão ter que prestar contas. Eles querem é meter a mão na grana e sumir com a grana. Com lei, não vai dar para enfiar a mão e por o dinheiro no bolso. Isso acontece em todas as federações e todos os presidentes de CBA fizeram isso, todos!

 

NdG: Já que você levantou a questão da CBA, quando o Pedro foi correr na Nova Zelândia e teve que deixar o torneio por conta do problema da licença, todos esperavam aqui no Brasil que você ‘metesse a boca no trombone’... e você não fez isso. Por quê?

 

Os pilotos é que deveriam eleger os presidentes de federação e CBA. Os caras que estão lá não sabem nada e só fazem merda!

 

Nelson Piquet: Não. Eu não meti a “boca no Trombone” porque eu os obriguei a se retratarem publicamente, admitindo que estavam errados, que fizeram uma merda! Daí eles botaram no jornal, na mídia toda. Por que eles fizeram? Porque eu não ia “botar a boca no trombone”… eu ia processá-los contra danos! Eu falei pra eles: ’ou bota lá, na imprensa toda’, ou eu processo vocês por danos... e vou cobrar muita grana’.

 

NdG: Você é muito amigo do Niki Lauda, há muito tempo, e ele hoje ocupa um cargo de direção na equipe que está vencendo na F1. Hoje, o que vemos é a F1 como um negócio que envolve bilhões e que precisa ser muito bem gerido. As equipes são verdadeiras empresas. Você que mantém este contato próximo vê algum conflito de interesses comerciais entre equipes e promotores, não só na F1 como em outras categorias?

 

Nelson Piquet: Depende do lugar... cada lugar tem seu problema. Aqui, o que é que a confederação ganha de dinheiro? Carteirinha de pilotos e toda categoria que alguém queira fazer tem que pagar uma fortuna para eles. E depois de pagar esta fortuna tem que pagar tudo do evento, bandeirinhas, fiscais... tudo! E aí como é que você vai conseguir ganhar alguma coisa pra pelo menos recuperar a grana que gastou? Categoria de base, que não tem público, não tem ingresso, não tem transmissão de TV, não tem mídia, não tem patrocínio, não tem porra nenhuma. Vai viver como? É ele e ele! Federação e Confederação tinha que estar ali só pra regulamentar... e não pra foder o negócio.

 

NdG: Olhando para o que acontece no exterior, que nós lemos o que foi publicado por eles, temos visto com apreensão esta crise de gestão no automobilismo internacional e com mais evidência na F1, com perda de audiência na TV, de público nos autódromos, o público falando que os carros são feios... O que você viu, como empresário, nestas suas idas recentes à Europa?

 

Nelson Piquet: Olha, eu fui este ano em dois GPs de Fórmula 1 na Europa e foram maravilhosos, não deixaram em nada a desejar. Agora, tem coisas que eu vi e que não tem como negar. Os carros são menos barulhentos, o piloto perdeu em importância porque os carros são muito mais fáceis de guiar, com um monte de eletrônica pra corrigir os problemas. Se hoje tem menos público não é por causa da Fórmula 1 estar diferente. Ela sempre foi ficando diferente e daqui 10 anos vai ser diferente. O problema hoje tá na crise mundial. Esse ano não teve corrida na Alemanha porque os caras não tinham grana pra fazer a corrida.

 

NdG: No GP da Áustria e da Hungria você se divertiu um bocado com o pessoal que correu contigo. Como é hoje o ambiente entre os pilotos pelo que você viu?

 

Eu avisei ao [Cleyton] Pinteiro: ou ele se retratava, assumindo que errou com o Pedro ou eu entrava com um processo por danos contra a CBA. 

 

Nelson Piquet: Foi muito legal mesmo estar lá com vários deles. A gente vai contando histórias e até descobrindo umas coisas que não sabia. Dá sempre pra dar uma sacaneada nos chatos como o Prost, mas agora ele leva na brincadeira (risos). Também sacaneei o Bernie [Ecclestone] dizendo que levei uma velha pra passear de limusine...

 

NdG: E com os pilotos do grid? Como foi o papo?

 

Nelson Piquet: Ah, os caras estão lá, trabalhando, durante os treinos os caras ficam lá, cercados de engenheiros pra tirar um décimo do tempo, mas teve um jantar que fizeram lá na Áustria e colocaram a gente na mesma mesa com eles... puta papo merda! Os caras não sabem conversar, não falam nada que preste. Teve uma hora que eu perdi a paciência, interrompi e falei ‘praquele carinha (Lewis Hamilton): ‘Ó, na minha terra quem usa essas porras na orelha é índio’! Ah, eu levantei e fui sentar noutra mesa! Daí o pessoal foi saindo e ‘deixou eles lá, vieram sentar comigo.

 

NdG: Você tem entre seu filho mais velho e o mais novo cerca de 30 anos de diferença. Em 30 anos, da F1 que você pilotou pra hoje, muita coisa mudou, evoluiu. Como foi o processo de ‘evolução’ do Pai Nelson?

 

Nelson Piquet: Cada filho foi em um momento da minha vida. Quando o Geraldinho nasceu eu estava na Fórmula 1, na Europa a maior parte do tempo, ele não morava comigo. Depois veio a parte do Nelsinho e da Kelly, que estavam um pouco mais juntos, mas que não era uma convivência diária, como foi com o Lazlo e a Julia, que estes eu ainda vi mais quando criança. Com o Pedro e o Marco não, já foi uma criação dentro de casa e hoje estão sempre que podem todos juntos lá em Brasília e eles tem uma convivência muito boa, eles se gostam muito, como irmãos.

 

NdG: Seu pai foi um homem que saiu do interior de Pernambuco e que, como você disse em algumas entrevistas, era um educador muito rígido. O que foi que o pai Nelson manteve dentro da mesma linha de criação para seus filhos?

 

Teve uma hora que eu interrompi o Hamilton e disse pra ele que quem usava aquelas merdas nas orelhas na minha terra era índio!

 

Nelson Piquet: Honestidade e sinceridade. Meu pai foi um homem muito honesto. Fez a vida como médico, nunca quis ser candidato a cargo político, foi convidado (para ser ministro da saúde do Governo de João Goulart) por sua competência e sua moral e assim educou a mim e aos meus irmãos. É assim que eu procuro educar meus filhos e orientá-los quando eles me pedem.

 

NdG: E dentre os sete filhos, qual deles é “o mais Nelson”? O que mais tem teu temperamento?

 

Nelson Piquet: Pô, não tem... são todos bem melhores (risos). São todos filhos maravilhosos, muito carinhosos, muito família, que gostam de estar em casa, de conviver comigo e entre eles.

 

NdG: Você tem uma ‘família veloz’. Dos cinco filhos homens, quatro foram seguindo seus passos para dentro de um carro de corridas... e as meninas, a Kelly e a Julia, nunca se interessaram em correr?

 

Nelson Piquet: Olha, eu sou meio machista nesse aspecto e nunca incentivei nem dei muita abertura para isso. Houve um tempo que a Julia pediu e até insistiu um pouco para correr de kart, mas eu não deixei.

 

NdG: No mundo corporativo, para se chegar ao sucesso, normalmente se faz um planejamento, segue-se etapas. No automobilismo é assim também e neste caso o topo é a F1. Há 10 anos foi feito um planejamento com sucesso que foi o “Projeto Nelson Ângelo”. Agora, está em curso o “Projeto Pedro”. O que vocês estão fazendo de igual e o que está sendo feito diferente? 

 

Nelson Piquet: No caso do Nelsinho, todo mundo viu o que eu fiz. Montei o time, a equipe de trabalho e fomos fazendo todos os passos que tinham que ser feitos até chegar na F1. Ele foi campeão aqui no Brasil na Fórmula 3. Depois fizemos uma equipe na Inglaterra onde ele também foi campeão na Fórmula 3 inglesa e montamos a equipe na GP2 onde ele foi vice-campeão e chegou à F1. Não ficou, não conseguiu permanecer por tudo que todo mundo já sabe. Com o Pedro estamos fazendo diferente. Vim para um time já pronto, que sabe fazer as coisas e no ano que vem vamos seguir neste mesmo caminho, entrar numa equipe para disputar o europeu de Fórmula 3 e vamos ver como será a vida dele por lá. Ele está se preparando para isso, já andou treinando no início do ano na Europa para conhecer os carros da categoria e vamos fazer a coisa certa.

 

NdG: Hoje em dia os pilotos treinam muito em simulador. A Nissan, inclusive, tem um programa de formação que o piloto é formado nestes simuladores. Você que foi um piloto que aprendeu fazendo o carro, literalmente, desde os tempos de kart, acha possível que um dia a formação do piloto deixe de passar pelo kart ou outras categorias de base?

 

Eu tenho uma relação maravilhosa com meus filhos e eles tem também entre eles. Somos uma grande família e eles são melhores que eu.

 

Nelson Piquet: Rapaz, você perguntou isso para o cara errado... eu sou um ‘old fashion’. Eu nunca usei na vida um simulador de carro, nem para brincadeira. De simulador de avião eu gosto de brincar, esses eu conheço, mas os de carros de corrida, nunca sentei. Eu não conheço esse programa da Nissan, mas acho muito difícil que um piloto que dá 10 voltas numa pista e aprende o traçado, que acha as referências, que sente as ondulações consiga compensar isso treinando só em simulador... mas eu posso estar totalmente errado.

 

NdG: Você sempre foi um cara muito crítico com a imprensa. Teve alguma ocasião que o entrevistador foi levando a entrevista e chegou naquele ponto de você pensar: ‘agora ele vai fazer aquela pergunta pra ganhar o Pulitzer’... e o cara foi ‘parar na caixa de brita’?

 

Nelson Piquet: (risos) O problema é que tem jornalista preparado e tem jornalista não preparado. O bom é o jornalista honesto. Uma vez um jornalista chegou pra mim e falou: “Nelson, meu editor me mandou entrevistar você e fazer uma matéria com 70 linhas e eu não sei nem o que devo perguntar”. Nesses 40 anos no meio do automobilismo eu já vi jornalistas bons, jornalistas ruins e isso em todo lugar. É uma coisa caso a caso. Mas você escapou da caixa de brita (risos).

  
Last Updated ( Wednesday, 14 October 2015 17:42 )