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Por dentro da Fórmula Indy PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Friday, 31 May 2013 21:33

Quem assiste uma corrida de automóveis pela televisão, dificilmente – a menos que seja um apaixonado como nós e tantos outros que escrevem sobre o assunto – faz ideia do que é necessário para se transformar um autódromo, que é um local apropriado e projetado para receber corridas em um cenário para receber uma das principais categorias do automobilismo mundial como a Fórmula 1. Imagine o leitor amigo do que é transformar as ruas de uma cidade em um autódromo! Este é o trabalho que todos os anos São Paulo passa para receber a etapa brasileira da Fórmula Indy. São cerca de dois meses de preparação para que possamos assistir – seja em casa, seja nas arquibancadas – a corrida disputada no entorno do pavilhão de exposições do Anhembi, que passa pelo sambódromo, mas que também faz uso de duas importantes vias de tráfego da cidade: a Avenida Olavo Fontoura e uma parte da pista lateral da Marginal do Rio Tietê, que naquele trecho chama-se Avenida Assis Chateubriand.

 

Nosso trabalho começou na segunda-feira, bem antes dos protagonistas do espetáculo chegarem ao palco da quarta etapa do campeonato, a única fora da América do Norte. Parte co equipamento já havia chegado e as equipes de montagem da estrutura das garagens, que ficam no pavilhão de exposição do Anhembi trabalhavam freneticamente para concluir os arranjos. À primeira vista, duas coisas vieram à mente: 1-não vai dar tempo. 2-se o Bernie Ecclestone, que vive reclamando de espaço em Interlagos, visse isso aqui, transferia a F1 pra cá!

 

O pavilhão de exposições do Anhembi, com seus mais de 72 mil metros quadrados na tarde da segunda-feira, 29 de abril.

 

Como funciona a parte de estruturação do espetáculo, vamos mostrar no “Universo Indy”. Agora, vamos dar um salto no tempo até a quinta-feira, onde fomos acertar os últimos detalhes do nosso trabalho com a equipe KV, onde corre o piloto brasileiro Tony Kanaan e que iríamos acompanhar passo a passo.

 

De cara, um problema: Como a equipe tem dois sócios, dois chefes (Kevin Kalkhoven e Jimmy Vasser), com quem iríamos falar, perguntar os detalhes, ver o que poderia ser publicado ou não, fotografado ou não? O pseudo problema foi mais simples do que imaginávamos para resolver:

 

Ficou a cargo do engenheiro Steve Moore, que supervisiona todo o trabalho da equipe nos boxes, fazer as honras da casa e determinar as regras que deveríamos seguir. A mais importante delas: não atrapalhar o trabalho. Além disso, nada de fotos detalhadas de partes sensíveis do carro (apesar do regulamento da categoria ser muito rígido, alguma liberdade para trabalhar as equipes tem e cada uma busca encontrar meios de obter – dentro das regras – uma vantagem sobre os concorrentes) e não perturbar os pilotos nos momentos de concentração como treinos e na corrida.

 

Posto isso claro, tivemos então nossa primeira conversa dentro da equipe para conhecer um pouco mais sobre a KV Racing.

Splash and Go com Steve Moore.

 

Para quem não conhece Steve Moore, este neozelandês está envolvido com as competições de automobilismo desde a adolescência, tendo iniciado tudo aos 16 anos. Há mais de uma década nos Estados Unidos, é um dos profissionais mais respeitados da categoria.

 

NdG: Com quantos integrantes a KV trabalha normalmente em uma corrida, em um final de semana de corrida. É a mesma equipe que trabalha todo o ano? Quantas pessoas vieram para o Brasil?

 

Steve Moore: Nós trabalhamos com um número mais ou menos fixo por corrida, mas a equipe não é apenas as pessoas que vem para o circuito. Temos pessoas que ficam no escritório, nas oficinas e que não aparecem nas câmeras. Para as corridas temos uma equipe que trabalha diretamente nos carros, que fazem os pit stops, os reabastecimentos e, por regulamento, há um número máximo de pessoas que podem trabalhar no carro durante as paradas de Box. Aqui em São Paulo viemos em 30 integrantes entre mecânicos, pessoal da eletrônica, assessoria de imprensa. É um número suficiente para fazer o trabalho.

 

NdG: No ano passado vocês tinham três carros, este ano apenas dois. A equipe diminuiu e a qualidade aumentou ou no ano passado vocês tinham mais dados e podiam trabalhar mais?

 

O local destinado à equipe KV Racing, na terça-feira pela manhã.

 

Steve Moore: No ano passado foi um pouco complicado. Tínhamos o planejamento inicial para ter apenas um carro no grid no começo do ano e, em fevereiro tínhamos três pilotos e que montar três carros. Precisamos sair contratando gente pouco antes do campeonato começar e pessoal com qualificação e experiência não fica disponível no mercado. Precisamos garimpar muito e reunir o que de melhor era possível reunir àquela altura. Em todo caso, o balanço foi positivo. Tony conseguiu cinco resultados entre os quatro primeiros, foi segundo em Milwaukee e era a primeira temporada do Rubens. Para este ano, o tamanho da equipe diminuiu com dois carros ao invés de três e tivemos condições de reforçar os times que trabalham nos dois carros. Acreditamos que teremos uma temporada melhor.

 

NdG: Na Fórmula 1 os testes são muitos restritos para reduzir os custos da categoria. Na Indy é assim também ou quem tem um orçamento maior pode treinar mais?

 

O local destinado para a Equipe KV Racing ao meio dia da quarta-feira.

 

Steve Moore: Não é liberado. Talvez não haja as mesmas restrições que existe na Fórmula 1, que eu não conheço, mas existem restrições quanto a quantidade de testes e de milhagem que cada equipe pode fazer. São dez mil milhas (16 mil Km) por carro e nestes testes podemos avaliar os componentes dos fornecedores, os fornecedores de motores tem 3 dias de testes, e os demais dias para as equipes.

 

NdG: A equipe Andretti não leva vantagem tendo a estrutura que tem e quatro carros? Eles tem o dobro da milhagem...

 

Steve Moore, nosso cicerone durante a semana na equipe KV Racing.

 

Steve Moore: Seria assim, mas na realidade eles não tem esta vantagem pois quando se vai para os testes de pista é determinado quantos carros podem ser usados nos testes, se um ou dois carros. Isso diminui a perda das equipes que tem apenas um carro e torna a competição mais justa.

 

NdG: Trabalhando há tanto tempo nos Estados Unidos e sendo um profissional tão conceituado, você nunca recebeu uma proposta ou mesmo teve algum interesse em trabalhar na NASCAR?

 

Instalações da equipe KV Racing na quinta-feira no final da tarde. Tudo pronto para começar o espetáculo. 

 

Steve Moore: não, não... minha vida toda trabalhei com monopostos. Quando comecei, na Nova Zelândia, foi em uma equipe de Fórmula Ford. Apesar de haver competições de carros de turismo por lá e de temos na Austrália, que tem um automobilismo forte e profissionalmente atrativo uma categoria como a V8. Mesmo assim, nunca me senti atraído por carros que não fossem os monopostos.

 

NdG: A KV tem este ano uma dupla de pilotos bem diferente. A começar que trata-se de um homem e uma mulher. Além disso, há uma diferença de idade 14 anos entre eles e muita... muita milhagem. Como a equipe está lidando com esta, digamos, diversidade e eles dois, com as experiências pessoais um do outro?

 

Steve Moore: Tem sido uma experiência muito positiva para todos nós. A experiência do Tony como piloto ao longo de tantos anos na Indy e tudo que aprendeu antes de chegar aqui é de uma enorme valia para todos na KV e ele ter um companheiro de time tão jovem quanto a Simona também é um desafio e um aprendizado para ele ter um piloto jovem, rápido e com ideias novas para a equipe. Tem sido algo muito bom para todos aqui na KV.

 

Tudo poderia ter sido comprometido em seu planejamento: os carros chegaram com 24 horas de atraso.

 

Depois de agradecer a atenção, era hora de deixar Steve e a equipe trabalhar. Os carros chegaram na madrugada de terça-feira, devido a um atraso no segundo voo da SOS Global, que trouxe em dois Boeings 747 de carga o equipamento para a corrida. Na terça feira, a equipe coordenada por Jeff Harton (saiba mais sobre este trabalho no “Universo da F. Indy”) trabalhou duro para colocar em frente de cada um dos escritórios montados no pavilhão do Anhembi o que pertencia a cada uma das equipes.  O trabalho terminou naquele dia mesmo, mas os times só tiveram autorização para mexer nos equipamentos na quinta-feira.

 

O atraso de um dos 747 acabou por ajudar Jeff Harton a distribuir os equipamentos das equipes.

 

Os carros vem “embalados” em uma estrutura modular metálica, sendo estas movidas e depois os carros empurrados para fora delas. Dentro das equipes, os mecânicos começam o trabalho organizando a área de trabalho, dispondo as caixas de ferramentas e retirando a carenagem e verificando a integridade dos carros, mesmo que superficialmente e montar as bases onde os carros ficam para ser feito os ajustes de equilíbrio dos mesmos. Trabalho pesado, de levantar a carenagem e inspecionar os componentes do carro ficaram para a sexta-feira, se bem que, algumas equipes chegaram a mexer inclusive em câmbio e motores.

 

A coletiva da quinta-feira.

 

O grande evento do dia foi a entrevista coletiva na enorme sala de imprensa que, para o tamanho do evento, parecia ser pequena em determinados momentos, mas que atendeu bem ao trabalho de todos.

 

 

A entrevista foi iniciada pelos organizadores do evento que falaram sobre o esforço que é realizar um evento como esse sem ser em um autódromo, mas o que nos interessava, ao menos naquele momento, era a entrevista com os pilotos brasileiros que fariam seu primeiro contato – protocolar – com a mídia, apesar de todos eles já estarem participando de eventos promocionais desde o início da semana.

 

Quando tivemos o microfone à nossa disposição, perguntamos aos nossos representantes sobre a exigência física que um circuito de rua, com seu asfalto irregular e o pequeno curso das suspensões destes carros, fazia com eles, em especial com a coluna, e que trabalho físico eles faziam para resistir às exigências físicas impostas por este tipo de traçado.

 

 

A resposta de Helio Castro Neves foi surpreendentemente direta. Helinho disse que os pilotos da Indy não tinham “este tipo de frescura” com relação às ondulações, numa crítica direta aos pilotos de Fórmula 1 que tanto reclamam das ondulações – que são pequenas perto das encontradas nos traçados de rua.

 

Tony Kanaan endossou as palavras de Helio Castro Neves e não perdeu a oportunidade de fazer uma comparação do que é a realidade encontrada no circuito do Anhembi em relação aos outros circuitos urbanos que a categoria corre, afirmando sem titubear que a condição do asfalto no Brasil é bem melhor do que qualquer outro circuito urbano da categoria. Bia Figueiredo concordou com a opinião dos colegas mais experientes.

 

 

A pergunta mais óbvia foi, de mais de uma maneira feita pelos presentes: qual era a expectativa dos três para a corrida.

 

Enquanto Tony Kanaan e Helio Castro Neves passavam para a imprensa um grande positivismo, acreditando em uma vitória e na quebra do “efeito Power” (Will Power venceu as três edições da etapa brasileira) e as brincadeiras entre os três brasileiros davam um ótimo clima de descontração. Bia Figueiredo, mais realista, alimentava a esperança de fazer uma boa prova e terminar em uma boa classificação.

 

Apesar do clima descontraído, havia uma preocupação no ar: Tony Kanaan lesionou três tendões da mão no acidente ocorrido última etapa antes da corrida no Brasil e, segundo os médicos da categoria, seria necessário um repouso de oito meses para a sua completa recuperação.

 

 

Bia Figueiredo, gentilmente, ofereceu a proteção que ela usou no ano passado para o compatriota, mas a diferença de tamanho entre as mãos deles gerou um comentário e muitas risadas na sala da entrevista quando Bia disse que a mão de Tony Kanaan era muito gorda!

 

Quem também provocou risos na entrevista foi a companheira de equipe de Tony Kanaan, Simona de Silvestro, que perguntou se ele ia demorar muito ali porque ele tinha que pagar um café com pão de queijo pra ela. Pouca gente entendeu a pergunta na plateia, mas os pilotos caíram na risada com o “português” da ítalo-suiça, Simona, que fala francês, Italiano, Alemão, mas que não se sente 100% confortável com o inglês.

 

 

A coletiva terminou com os três brasileiros posando para uma foto, abraçados.

 

Na sexta-feira o trabalho começou cedo. Apesar de termos chegado no Anhembi pouco depois das sete horas da manhã, já encontramos os mecânicos da KV com a mão na massa. Era uma vantagem enorme em termos de deslocamento, uma vez que todas as equipes estavam hospedadas no hotel que fica ao lado do pavilhão de exposição ao passo que tínhamos que encarar o caótico trânsito da capital paulista.

 

De cima do estúdio volante da Rede Bandeirantes, fizemos esta tomada de como estavam as garagens na sexta-feira às 7 da manhã. 

 

O pavilhão, que nos dias anteriores tinha apenas operários e montadores trabalhando e carregando material era agora tomado por um exército de engenheiros e mecânicos em cada uma das equipes no trabalho de verificação e preparação dos carros para os treinos, que de forma diferenciada de outras etapas, estavam todos concentrados no sábado. Um complicador a mais para as equipes que precisariam ter tudo – teoricamente – pronto e pouco tempo para ajustes na hora de ir par a pista entre um treino e outro.

 

Ao contrario do que vemos na F1, na Fórmula Indy é normal vermos carros da mesma equipe com pinturas completamente diferentes, até mesmo mudando pinturas de uma corrida para outra, atendendo contratos de patrocínio. No Brasil, Tony correu com o carro todo vermelho, devido ao patrocínio de uma cervejaria. Mas a ‘casca’ não é o que nos interessa, vamos ao conteúdo!

 

 

Os carros de Tony e Simona já estavam cercados pelos mecânicos e engenheiros, cada um fazendo a tarefa que os competia. Verificação de componentes dos sistemas de freio, câmbio, partes do motor, suspensões traseira e dianteira, sistema de refrigeração e eletrônica. Cada item era examinado. Se fosse necessário, havia como serem trocados. A equipe trouxe 40 mil libras (pouco mais de 18 toneladas) de equipamento!

 

Enquanto alguns trabalhavam na parte mecânica e eletrônica do carro, outros cuidavam das partes móveis da aerodinâmica: as asas! Com o setup do ano anterior, os mecânicos ajustaram a inclinação das mesmas. Cada asa tem uma grande série de combinações, de possibilidades com o ajuste dos parafusos que as fixam. No caso do carro de Tony Kanaan, um trabalho extra estava sendo feito: o de “adesivar” as peças com o merchandising do patrocinador da corrida. Pode parecer simples, mas tem que ser perfeito, para não criar ranhuras, bolhas e comprometer a eficiência aerodinâmica.

 

 

Enquanto os mecânicos trabalhavam, demos uma fugida para assistir a reunião do Ken Gardner, Diretor da IMS Productions, com os chefes dos setores ligados a transmissão do evento pela televisão. Durante toda a semana, sempre às 09:00 horas, Ken fazia esta troca de informações para avaliar e corrigir o que fosse preciso para que, no domingo, a transmissão fosse perfeita. Conheça mais sobre como se faz a transmissão da TV no “Universo da F. Indy”. Junto com o trabalho de Ken Gardner, um ‘Splash and Go’ com o Diretor de Operações da Indy, Robert Greene.

 

Eram 10:30 da manha quando soou o ronco do primeiro motor na equipe KV. Era o da Simona de Silvestro. Neste momento foram testadas as funções do volante e o engenheiro de telemetria conectou o computador para fazer as leituras iniciais. O carro era acelerado e reduzido diversas vezes, com as rodas girando sem pneus e todos os componentes móveis sendo examinados.

 

 

Simona acompanhava o teste de perto. Ela foi a primeira dos pilotos a chegar nos, digamos boxes (é meio complicado chamar aquilo de box, depois de fazer tantos eventos em autódromos) e conversava com os mecânicos sobre questões do carro. A primeira impressão foi a que a piloto se entrosou muito bem com a nova equipe.

 

Enquanto acompanhávamos os testes com o carro número 78, a equipe de trabalho do carro de Tony Kanaan continuava trabalhando. Depois que pararam o motor do carro 78, conseguimos conversar rapidamente com Simona de Silvestro que falou sobre sua temporada na KV, sobre a vida no esporte a motor e nos deu uma pequena aula sobre o volante de um carro da Fórmula Indy.

 

Splash and Go com Simona de Silvestro.

 

NdG: Simona, Fala um pouco sobre sua vida antes de vir para os Estados Unidos, antes de ser pilota, antes da KV?

 

Simona de Silvestro: Eu nasci na Suíça, onde não tem corridas de carro. Era muito inquieta quando era criança, acho que isso é do meu lado italiano (risos) e também deve ser o meu gosto por corridas. As corridas eram transmitidas e eu só parava quieta quando tinha corrida na TV. Eu era criança e meu pai, tinha uma revenda de carros e ia ter uma exibição de kart. Eu fiquei louca, queria andar de todo jeito, mas não alcançava os pedais (risos). Depois daquele dia só falava naquilo e aos 6 anos meu pai me deu um kart.

 

NdG: Mas de gostar de corridas a pilotar tem uma grande diferença...

 

 

Simona de Silvestro: Tem sim, se a gente olhar para as arquibancadas em Indianápolis, por exemplo, onde 250 mil pessoas estão lá, quase todos, penso eu, gostariam de estar na pista e não nas arquibancadas. Acho que meu pai talvez preferisse que eu continuasse assistindo corridas na TV. Ele me incentivou a fazer tudo que foi esporte. Eu até jogava bem tênis de mesa e esquio bem até hoje, mas o esqui é tão ou mais perigoso que as corridas e assim acabei começando a correr. Primeiro no kart, depois de Fórmula, na Itália e na F. BMW.

 

NdG: Algum piloto era ou é sua inspiração? Uma referência? Em caso positivo, porque?

 

Simona de Silvestro: Michael Schumacher. Ele sempre buscou a vitória, sempre buscou a perfeição e é um vencedor.

 

NdG: O que levou você a sair da Europa para a América, uma realidade tão distante do automobilismo europeu? 

 

Simona de Silvestro: depois de andar na F. Renault e na F. BMW, para seguir adiante na Europa era preciso muito dinheiro e eu não tinha. Busquei ver as alternativas e vi nos EUA, a F. Atlantic como um caminho para chegar numa categoria Top, como a Indy. U tempo mostrou que eu tomei a decisão certa.

 

NdG: Na Europa não existem corridas em oval, como foi sua adaptação a este tipo de circuito?

 

Simona de Silvestro: Não é fácil... não por grau de dificuldade, pois toda pista tem seu grau de dificuldade. É que o oval é muito diferente. Quando eu estava dirigindo na F. Atlantic e olhava para uma pista oval, achava que era muito fácil andar ali, mas quando comecei a correr nos ovais foi definitivamente um grande desafio, porque praticamente tudo o que você sabe, você não pode realmente aplicar em um oval (especialmente os ovais rápidos). É um grande aprendizado e para mim foi questão de começar a praticar nesse tipo de pista. Eu ainda acho que tenho muito o que melhorar nessa área, então toda vez que piloto em um circuito oval, tento melhorar.

 

NdG: Você esta chegando na KV este ano e tem como companheiro de equipe um veterano da categoria que é o Tony Kanaan. Como tem sido este convívio com ele?

 

Simona de Silvestro: Quando eu cheguei na Fórmula Indy, em 2010, o Tony foi uma das pessoas que melhor me recebeu. Eu estava aprendendo e tinha tudo para aprender e, dentre os pilotos, era a ele quem eu normalmente recorria para perguntar sobre alguma coisa, mesmo ele estando em outra equipe e ele sempre foi muito atencioso comigo. Eu devo parte do que eu sei sobre F. Indy a ele! Estar na mesma equipe com ele está sendo muito bom. Continuo aprendendo muito e hoje já posso até trocar informações com ele com o que já aprendi. Ele é uma pessoa sensacional, está sempre de bom humor e nos damos muito bem.

 

NdG:  Você sabe, certamente que o Tony é um grande kartista até hoje...

 

Simona de Silvestro: Sim, eu sei. Ele sempre diz que o kart é um excelente treinamento para os reflexos do piloto e eu concordo com ele.

 

NdG: Você sabia que ele, quando era adolescente, derrotou o Ayrton Senna em uma corrida de kart no kartódromo privado da fazenda do próprio Senna e o Senna já era tri campeão de F1? Ele contou isso pra você?

 

Simona de Silvestro: Sério? Ele nunca contou isso! É verdade mesmo?

 

NdG: Pode perguntar pra ele...

 

Simona de Silvestro: Essa ele vai ter que contar... nossa, o Senna... incrível!

 

NdG: Tem pilotos que tem superstições sobre as corridas. Um brasileiro diz que, quando tudo dá certo no primeiro treino, ele nem troca a cueca no final de semana. Você tem alguma superstição nos finais de semana de corrida?

 

 

Simona de Silvestro: Tenho... mas nada deste tipo (risos). Se algo funciona bem em um fim de semana de corrida, eu tento fazer a mesma coisa na próxima corrida, por isso não é a mesma maneira toda a temporada, muda durante o campeonato. Mas, eu sempre entro no carro da mesma maneira, com meu lado esquerdo e sempre amarro meu sapato esquerdo primeiro também.

 

NdG: Na véspera da corrida, você dorme bem?

 

Simona de Silvestro: Super bem. Deito e durmo rápido!

 

NdG: O que você acha da pista aqui de São Paulo? Por favor, não é porque somos brasileiros que você não vai criticar. Se tem algo que você não gosta, pode falar, ok?

 

Simona de Silvestro: Aqui é muito bom. É o circuito de rua mais próximo de um autódromo que temos. Tem retas longas, bons pontos de ultrapassagem, as ondulações são menores. É uma pista que exige bastante do piloto e do carro. Espero que este ano não chova, como a meteorologia está dizendo e que possamos ter uma grande corrida.

 

A aula sobre o volante dos carros da Fórmula Indy você vai ver no “Universo da F. Indy”.

 

Eram 11:30 quando partiram o motor do carro de Tony Kanaan. Aquilo que vimos no carro de Simona de Silvestro repetiu-se no carro do brasileiro, com todo “time vermelho” em volta. Tony Kanaan já estava ao lado de seu time acompanhando tudo e depois, com todos os dados coletados pelo engenheiro de eletrônica, Steve Moore e os pilotos se trancaram no escritório para a primeira das muitas reuniões que teriam naquele final de semana.

 

 

Terminada a reunião, em teoria seria a hora para uma pausa para o almoço... mas não foi! Simona saiu dos boxes e foi, com seu staff de mecânicos e seu engenheiro de pista,  Gerald Tyler, fazer um reconhecimento do traçado onde, a partir do sábado, iria acelerar o seu Dalara-Chevrolet.

 

Este parece ter sido o pensamento de diversos pilotos uma vez que a pista ficou bastante ocupada. A diferença entre Simona e os outros é que a piloto da KV Racing decidiu fazer o trajeto a pé! E lá foi ela, percorrendo os 4.081 metros debaixo de um sol de meio dia pra uma da tarde. Junto com ela, nós e a equipe de três profissionais da NBC Sports que estavam fazendo um especial com ela.

 

 

Ao longo do trajeto Simona mostrou-se bem detalhista, examinando as zebras, os pontos de tomada e tangência das curvas, os pontos onde o asfalto foi refeito, as ondulações, principalmente na reta principal, de praticamente um quilômetro e meio, em que os carros atingem marcas próximas dos 300 km/h.

 

Bem mais devagar que isso passaram por nós diversos carrinhos destes que aparecem em campos de golfe, com pilotos e membros de outras equipes fazendo o reconhecimento de forma motorizada (que inveja!).

 

 

Perguntamos a Simona se ela sempre fazia este reconhecimento de pista a pé e ela disse que sim, desde os tempos de kartista, que tem uma sensibilidade melhor fazendo assim do que numa moto ou carro. Entre os que passaram por nós estava Tony Kanaan, que trazia ao seu lado o amigo e convidado ilustre: Rubens Barrichello, que por instantes roubou a cena, tanto na pista quanto nos boxes da KV.

 

Quando entrou na reta do sambódromo, Simona fez questão de passar por vários pontos da reta, ao mesmo tempo e de sentir com a mão a aspereza do piso de concreto, que foi lixado depois do carnaval para que os carros tivessem tração no local.

 

 

Saindo da parte de concreto, Simona deteve-se longamente no chamado ‘S’ do samba (que nós chamamos de ‘S’ de São Paulo porque “a curva é complicada na hora do rush”). O trecho foi modificado, com as zebras rebaixadas e a largura da pista aumentada, o que deve (e provocou) um aumento da velocidade no trecho.

 

Simona parou sobre as zebras, mediu a inclinação, conversou muito com seu engenheiro de pista, Gerald Tyler, discutindo as opções sobre acertos. Tivemos acesso ao teor da conversa, mas o compromisso assumido com Steve Moore nos impede de publicar o que foi decidido entre eles.

 

Quando retornamos aos boxes, os pilotos foram almoçar, rapidamente, pois muito ainda havia para ser feito. Havia uma equipe de televisão inglesa aguardando por eles, além das diversas equipes da TV Bandeirantes e do canal Bandsports que faziam, cada um por sua vez, entradas para todo o noticiário do grupo. Como foi feito o trabalho de transmissão da corrida para o Brasil, para os EUA e para os mais de 200 países que receberam o sinal, segundo informação da produtora de imagens o amigo leitor vai encontrar no “Universo da F. Indy”.

 

 

 

Depois da rápida pausa para o almoço – por parte dos pilotos – e que nós aproveitamos para repor os líquidos e comer algo na sala de imprensa (Um caso à parte para nós, que trabalhamos no evento e que mostrou um padrão nunca antes encontrado em quatro anos de cobertura nas pistas. O funcionamento da sala de imprensa está no “Universo da F. Indy”), retornamos aos boxes da KV onde um momento de grande importância tomava lugar.

 

Com a mão direita lesionada, tomando muito cuidado com os movimentos – e em especial com o assédio – Tony Kanaan precisava de cuidados especiais para a corrida em São Paulo. Para isso, foi feita uma proteção especial na empunhadura da mão direita do volante e uma luva especial para tensionar os tendões lesionados.

 

 

Tony entrou no carro e testou o arranjo feito. Um dos mecânicos amaciou a luva antes de Tony poder calçá-la e por alguns minutos o piloto fez movimentos que faria na corrida, virando o volante nas duas direções, com e sem a luva, para sentir a eficiência da proteção extra no volante.

 

Foi difícil ter um momento mais tranquilo com Tony Kanaan como tivemos com a Simona. Afinal, correndo no Brasil e um potencial favorito à vitória, o assédio de toda a mídia seria grande. Por isso, nosso “splash and go” foi uma coletânea dos momentos em que ele falou com  grupos de jornalistas e nos quais, também fizemos perguntas.

 

Splash and Go com Tony Kanaan.

 

NdG: Tony, mais uma corrida no Brasil. Correr em casa é diferente? Tem mais autocobrança? Mais expectativas?

 

Tony Kanaan: Cobrança a gente tem sempre. A gente que sempre fazer o melhor, quer sempre vencer e correr no Brasil, correr em casa, ter a torcida toda te empurrando e você pode pensar que não, mas você sente a torcida quando corre aqui em São Paulo, com as arquibancadas tão perto da pista. É uma coisa que empolga, que te empurra, que você sempre quer dar mais.

 

NdG: E essa mão... como você, a equipe médica da Indy, o Jimmy [Vasser] estão trabalhando isso?

 

 

Tony Kanaan: Foi uma infelicidade ter aquele acidente no final da corrida passada e provocar este problema. É uma lesão que não impede de fazer as coisas, mas que certos movimentos provocam dor e durante uma corrida, onde a gente tem que empunhar o volante com firmeza, que tem os ‘bumps’ da pista, virar o volante para um lado e para o outro... vai doer. A gente sabe que vai doer. Não sabe ainda o quanto vai doer, mas sabe que vai doer e eu vou dar tudo. Vou pilotar até onde eu conseguir suportar. Os médicos disseram que para recuperar totalmente eu precisaria de oito meses de repouso e não tem como ficar oito meses parado, sem correr então tem que aguentar a dor, ir tratando, ir cuidando e ir levando. Sábado o Dr. [Terry] Trammell vai fazer um exame e dizer se eu posso correr ou não, mas vai correr tudo bem.

 

NdG: Vamos deixar a mão de lado e falar sobre a equipe. Como está sendo este ano, com uma estrutura diferente e um companheiro – no caso companheira de equipe diferente?

 

Tony Kanaan: O ano passado foi meio complicado, com três carros e pouco dinheiro. Para este ano a equipe estruturou-se melhor, desde o começo planejamos trabalhar com dois carros e temos um bom time. Temos condições de conseguir bons resultados este ano, mais do que no ano passado. Eu estou confiante num grande resultado aqui em são Paulo e em grandes corridas na temporada.

 

NdG: E quanto a Simona? Não é a primeira vez que você tem uma mulher como companheira de equipe. Como está sendo a relação de vocês?

 

Tony Kanaan: Eu costumo brincar com ela que é como um início de namoro (risos) a gente vem se conhecendo. Ela já está indo para a quarta temporada na Indy e já tem uma boa milhagem. Ela é rápida, tem uma energia muito grande. É uma boa ouvinte, escuta as coisas que eu e o Jimmy [Vasser] falamos e tem muito o que crescer ainda. Ela tem potencial.

 

NdG: Dá pra fazer um parâmetro entre ela e a Danica?

 

Tony Kanaan: É a mesma coisa de comparar qualquer piloto. Não tem distinção, mas posso dizer o seguinte: a Danica era uma pilota com muito mais experiência. Muito mais que a Simona, que ainda é muito jovem. Por isso, em ritmo de corrida, eu acho que a Danica ainda é um pouco melhor neste momento, mas em termos de uma volta rápida, não tem ninguém melhor que a Simona.

 

NdG: O ambiente é bom, mas na pista tem disputa, né?

 

Tony Kanaan: Ah, tem sim! Não tem essa de deixar passar. Em St. Petersburg ela deu uma espalhada na curva da entrada da reta e eu fui pra cima. Nos boxes, nos treinos a gente se ajuda, na corrida todos querem vencer. Se eu vacilar ela vem pra cima e me passa também.

 

NdG: Você tem alguma superstição antes das corridas?

 

 

Tony Kanaan: Algumas (Risos)! Eu sempre ponho primeiro a sapatilha do pé esquerdo. Se faço ao contrário, por algum motivo, tiro tudo e começo de novo. No dia da corrida eu sempre ponho a minha ‘cueca da sorte’... limpa, é claro (Risos), que uso desde 2004, ano que fui campeão. Ela não está tão velha quanto pode parecer. Eu só uso em dia de corrida. Outra coisa é que sempre entro no carro pelo lado direito.

 

NdG: Você dorme bem na noite anterior às corridas ou fica repassando as coisas na mente?

 

Tony Kanaan: Durmo super tranquilo, sem stress.

 

O último compromisso da sexta-feira foi a entrevista com quatro pilotos estrangeiros que os amigos poderão ver como foi no “Universo da F. Indy”.

 

 

No sábado, chegamos mais cedo: eram seis e meia da manhã quando entramos pelo pavilhão do Anhembi onde estavam as equipes. Ainda não havia nenhum veículo de mídia, nem a Band estava com sua equipe no ar, mas as equipes já estavam todas trabalhando. Com os treinos todos concentrados no sábado e os carros indo para a pista às 08:30 da manhã, não podia se perder tempo. Os pilotos chegaram praticamente juntos, pouco depois das sete e foram direto para o escritório da equipe para uma reunião com os engenheiros.

 

Os carros foram levados, rebocados pelos carrinhos de golfe, até o pit lane e os pilotos foram seguindo, uns caminhando, outros em carrinhos de golfe e o Takuma Sato de patinete (o japonês foi um personagem à parte no final de semana. Leia mais sobre os personagens do final de semana no “Universo da F. Indy”). Pontualmente às 08:30 os carros foram autorizados a ir para a pista.

 

Tecnicamente encontramos uma dificuldade: diferente do que é comum na F1, onde os dois carros da equipe param no mesmo local, na F. Indy cada um para em um local diferente, de acordo com a classificação no campeonato e por conta disso, os pits de Tony Kanaan e o de Simona de Silvestro estavam separados por cerca de 70 metros.

 

 

Durante os primeiros treinos livres, os carros fizeram ‘stints’ de quatro a cinco voltas e estava claro que além de tentar encontrar um bom acerto o mais rápido possível, a grande preocupação da equipe era como a mão direita de Tony Kanaan suportaria aquele esforço.

 

Os carros foram divididos em dois grupos no primeiro treino livre, com trinta minutos de pista para cada um. No final do treino, os carros voltaram para dentro do pavilhão para serem revisados, ajustados e limpos antes da segunda seção de treinos livres, que seria ao meio dia.

 

Os pilotos pouco falaram após o treino, apenas aquelas entrevistas protocolares. Simona não foi além de um 17º lugar e não parecia ter “achado a mão” do circuito. Já Tony, com a mão direita “à meia-boca”, conseguiu o 6º tempo e tinha um ar bem mais positivo. De certeza apenas que as equipes tinham agora uma corrida contra o tempo para colocar os carros de volta.

 

 

O sol torrava quem estava nas partes externas e descobertas quando os carros voltaram para o pit lane pouco antes do meio dia. Era a última hora de treino livre para pilotos e equipes encontrarem o melhor acerto para o treino de classificação. Nesta segunda seção, não houve divisão de grupos e todos saíram para a pista rapidamente.

 

Na KV, os ajustes no carro de Simona de Silvestro tiveram o efeito desejado e a piloto passou a andar entre os 10 melhores tempos, terminando a sessão na 8ª posição. Tony Kanaan teve problemas. Em uma das saídas seu carro ficou sem combustível na volta de retorno aos boxes, parando pouco antes da entrada para os pits. Contudo, a 10ª posição não foi considerada de todo ruim na equipe. O carro apresentava um bom balanço e a esperança dentro do time era a de uma boa qualificação.

 

Restava agora o exame médico pelo qual Tony Kannan passaria e que definiria se ele teria autorização para participar da São Paulo 300 ou não. O alívio veio com o sorriso do Dr. Terry Trammell e a liberação de Tony para o treino classificatório e a corrida. O trabalho da equipe médica da F. Indy e da equipe médica brasileira que trabalhou no evento está no “Universo Indy”.

 

 

Antes das 14:30 da tarde de sábado tudo já estava pronto para o treino que definiria o grid. Nos pits dos dois times da KV, Simona e Tony já estavam dentro dos carros depois de ouvir as últimas palavras de Gerald Tyler e Jimmy Vasser. Era a hora de partir em busca de um resultado capaz de confrontar os tempos de Will Power, da Penske, que foi o mais rápido nos dois treinos livres.

 

Como era esperado, o tempo de volta caiu com a alteração no “’S’ de São Paulo”, com tempos na casa de 1m20s, mas cada treino tem uma estória e mesmo com o cenário indicando a Penske como favorita na classificação, tem coisa que podem fugir ao script... e fugiram!

 

O motor de James Jakes estourou, provocando uma bandeira vermelha e encerrando a sessão bem antes do horário programado... justamente quando os carros da Penske estavam em sua volta rápida! Com isso, os dois pilotos ficaram com o tempo da volta de aquecimento de pneus... e fora da segunda parte dos treinos. Na KV, os dois carros passaram bem, com Tony entre os mais rápidos do grupo 1 e Simona com o melhor tempo do grupo 2.

 

No “Q2”, Simona liderou a tábua de tempos por boa parte do treino, enchendo de esperanças todos no seu pit. Contudo, no final da seção, outros pilotos conseguiram virar mais rápido e ela caiu para a 8ª posição, ficando fora do ‘Fast 6’ que brigaria pela pole position. Se houve uma certa tristeza no pit da suíça, no pit de Tony Kanaan a alegria era grande. O brasileiro iria brigar pela pole e a mão (que mão?) estava aguentando firme.

 

 

O “Fast 6” mostrou um Hunter Reay muito mais rápido que os concorrentes, ficando 346 milésimos à frente do segundo colocado. Tony terminou com o 4º tempo e a equipe, no final das contas, estava bem satisfeita em ter seus dois carros nas quatro primeiras filas. Era um resultado que dava esperanças de uma grande corrida no domingo.

 

Na coletiva de imprensa, o clima entre os brasileiros era de contraste. Enquanto Tony Kanaan estava bastante esperançoso com relação a corrida, Helio Castro Neves não escondia sua frustração em não ter tido a oportunidade de marcar uma volta rápida. Contudo, apostava no bom desempenho apresentado pelos carros da Penske e numa corrida de recuperação. Já Bia Figueiredo, que saiu no lucro com a interrupção do treino, tinha esperança de fazer uma boa corrida e terminar bem a prova.

 

Fim dos trabalhos no sábado. Agora era jantar, dormir e encarar o grande dia: o domingo da corrida.

 

Após a entrevista do pole position, voltamos para o ‘cercadinho’ da KV onde os mecânicos faziam o trabalho de preparação dos carros para o domingo. Os dados foram coletados para análise pelos eletrônicos ainda nos pits e os ajustes estavam mais concentrados em partes mecânicas do que eletrônicas. O assoalho dos dois carros foi trocado (e nos foram dados de presente!). Conversamos rapidamente com Steve Moore sobre o treino e as perspectivas para a corrida.

 

Splash and Go com Steve Moore.

 

NdG: Steve, dá pra fazer uma análise dos treinos para nós?

 

Steve Moore: O treino foi um pouco diferente, por acontecer tudo no mesmo dia e termos menos tempos para trabalhar entre as sessões. Mas conseguimos encontrar um bom acerto para ambos os carros e colocar os dois entre os oito primeiros do grid foi algo muito positivo para a equipe. Ficamos felizes com a liberação do Tony para a corrida por parte dos médicos e acreditamos que ele vai se superar amanhã.

 

NdG: Chances reais de vitória?

 

Steve Moore: Acredito que é possível, sim. O Tony está muito motivado e se sentindo muito à vontade, apesar do problema na mão. A Simona foi muito rápida, sendo a mais rápida de todos em uma das sessões de treinos. Achamos um bom setup de corrida e amanhã, torcendo para não chover, parece que o tempo vai mudar justamente na tarde de amanhã, acredito que temos chances de vencer.

 

O último compromisso do dia foi a reunião dos pilotos com a direção de prova. Esta, infelizmente, não pudemos entrar.

 

 

Chegamos no domingo dispostos a não perder nada. Eram 5 da manhã quando estacionamos no local destinado para a imprensa e eram 05:15 quando entramos no pavilhão do Anhembi, praticamente deserto. Fomos recebendo e dando um “bom dia” ao pessoal que ia chegando. O time da KV foi chegando pouco antes das seis e, no encontro com Steve Moore, presenteamos o time com um lote de bonés do site dos Nobres do Grid para ser distribuído pelos integrantes da equipe... e teve gente que foi logo pondo a ideia na cabeça!

 

Com o warm up marcado para às oito horas, os pilotos chegaram logo depois das sete e, como no dia anterior, foram direto para o escritório do time para aquela conversa que – é claro – não podemos acompanhar ‘in loco’, nem revelar o conteúdo que nos foi passado, mas o clima na equipe era de uma enorme confiança em um grande resultado.

 

Preparação para o Warm Up.

 

Os carros foram para os pits por volta das 07:30, novamente rebocados, e logo que liberados, foram para a pista. Ninguém abusou da sorte no treino. Era uma checagem final dos carros antes da corrida, tanto que ninguém andou na casa dos 1m20s e dos primeiros, só o EJ Viso andou mais forte.

 

Trinta minutos depois, os carros já estavam voltando para os boxes que foram invadidos pelo pessoal da visitação, transformando o pavilhão num verdadeiro formigueiro. Entre turistas, curiosos e fãs, a presença ilustre de Emerson Fittipaldi, que visitou os brasileiros para desejar uma boa sorte e foi cercado pela imprensa, como é de costume.

 

Verificações finais.

 

Às 11:25 os motores dos carros da KV foram acionados pela última vez nos boxes. Era o check final antes de levar os carros para a pista. Menos de 5 minutos de motores virando. Tudo ok. Era hora de enfrentar o formigueiro de gente e tentar rebocar os carros para os pits, agora para a corrida. Os pilotos estavam concentrados para fazer o desfile para o público, que nesta altura já lotava as dependências do Anhembi.

 

Além das arquibancadas de concreto do sambódromo, que tem capacidade para 30 mil pessoas, foram montadas outras, cobertas, com assentos, com rampas para assessibilidade, além dos camarotes que ampliaram a capacidade para cerca de 45 mil lugares. Meio dia estava tudo tomado e quando os pilotos passaram pela reta do sambódromo, o público delirou.

 

Jimmy Vasser conversa com seus pilotos e com os membros do time antes de irem para os pits.

 

O carros foram posicionados no pit lane na ordem em que largariam, lado a lado, dois a dois, como num grid de F1. Contudo, as largadas da Indy são lançadas e é ali, nos pits que acontece todo um cerimonial onde são cantados o hino nacional (deles e o nosso), é dada a ordem de “liguem seus motores” e os carros saem para as voltas de aquecimento e apresentação.

 

Como todos provavelmente viram a corrida, não tem sentido ficar falando de algo que já se passou há um mês, mas como estávamos dentro dos pits da KV, certas reações e momentos a TV não mostrou e mesmo outros veículos de mídia tiveram acesso. Para ficar melhor, colocaremos as fotos e os créditos descrevendo cada momento.

 

Foi difícil tirar os carros do pavilhão em meio a multidão de fãs que se aglomeravam 

O desfile dos pilotos.

Carros no grid e pilotos chegando. Simona foi fazer um 'splash and go' antes da corrida.

Pilotos entrando em seus carros.

Caça da FAB dá rasante sobre o sambódromo para delírio do público.

Carros saem dos pits. O Brasil estava com Tony Kanaan.

Largada!

Tony assume a ponta.

Pit stop Tony

Pit stop Simona

Tony entra lento na reta do sambódromo. Desolação na equipe KV. Jimmy Vasser e a assessora de imprensa, Trish Donavan, não acreditam.

Depois da corrida, o contraste: no seu pit, Tony chora. 

75 metros distante dali, Simona está feliz pela 8ª posição.

 

No final da prova, tivemos nosso último “Splash and Go” com a equipe KV.

 

Tony Kanaan (junto com as equipes da Rede Bandeirantes)

 

NdG: O que você pode falar para o público que veio aqui hoje, Tony?

 

 

Tony Kanaan: Eu queria muito ter vencido a prova hoje. Tínhamos carro para andar na frente. Aconteceu uma infelicidade, um erro. Não é hora de buscar responsabilidades ou apontar culpados. As pessoas que trabalham comigo hoje trabalham comigo há anos. Vencemos muitas corridas juntos, perdemos muitas corridas juntos. Vamos trabalhar para ganhar a próxima.

 

NdG: Quanto a mão, como foi durante a corrida?

 

Tony Kanaan: Doía, claro. Era suportável, mas doía. Tinha horas que doía mais, com certos movimentos, mas doeu mais o coração quando o motor começou a falhar. Entrei lento ali na reta onde voltas antes tomei a ponta. Ali dava pra ver o público levantar... nessa hora não doía nada, a emoção anestesiava.

 

NdG: Não deu pra segurar as lágrimas... todo mundo viu na TV quando você entrou na reta...

 

Tony Kanaan: Ali doeu. Doeu no peito ver que a corrida estava perdida. O público foi maravilhoso, aplaudiu, gritou meu nome... não tinha como não se emocionar. O público merecia essa vitória. Eu sinto muito, muito mesmo.

 

NdG: Valeu, Tony. O melhor está por vir.

 

Tony Kanaan: Valeu.

 

Durante o trajeto nos pits, Tony Kanaan foi ovacionado pelos torcedores que estavam nos camarotes da reta da Olavo Fontoura, que davam vista tanto para reta quanto para os pits.

 

Simona de Sivestro (exclusivo para o site NdG)

 

NdG:: Simona, o que dizer desta corrida?

 

Simona de Silvestro: Acho que fizemos uma boa corrida, o carro estava bom, bem equilibrado, rápido nas retas onde deu pra fazer algumas ultrapassagens. A nossa estratégia de pits sofreu algumas mudanças com as bandeiras amarelas, mas conseguimos um bom resultado, chegando em 8º lugar.

 

NdG: Você viu quando o carro do Tony parou na reta das arquibancadas?

 

 

Simona de Silvestro: Sim, vi, mas ainda não havia bandeira amarela. Foi só na outra volta que vi realmente que o problema era sério. Foi uma pena. Ele estava brigando pela liderança e podia ter vencido a prova. Infelizmente estas coisas acontecem.

 

NdG: agora, Indianápolis:

 

Simona de Silvestro: Sim, a corrida mais especial do ano, muitas semanas de preparação. É uma festa incrível. No ano passado eu não pude participar, mas espero este ano classificar bem, fazer uma boa corrida éter um grande resultado. Indianápolis é um lugar onde tudo pode acontecer. Seria fantástico vencer lá.

 

Quando Tony passou pelo pit da companheira de equipe os dois se abraçaram e trocaram algumas palavras: ele, parabenizando-a pela corrida. Ela, lamentando pela má sorte do brasileiro.

 

Steve Moore (Exclusivo para o site NdG)

 

NdG: Steve, um balanço sobre este final de semana...

 

Steve Moore: Acho que fizemos um bom trabalho ao longo do final de semana. Colocamos os dois carros da equipe para largar entre os oito primeiros e tivemos boas perspectivas de vitória. A Simona fez uma excelente corrida, está de parabéns, tudo correu bem nas suas paradas, sem perda de tempo, ela foi bem rápida na pista e tem evoluído como piloto. Já do outro lado, tivemos uma infelicidade, houve um erro de cálculo de combustível o que deixou o Tony parado na pista. Foi uma grande pena, pois ele tinha condições de brigar pela vitória e certamente foi decepcionante para os fãs brasileiros e para ele, que é piloto local.

 

NdG: Agora é pensar em Indianápolis. Perspectivas?

 

 

Steve Moore: Vamos para Indianápolis com o pensamento fixo na vitória. Andamos muito bem lá no ano passado e tenho plena confiança de que temos condições, mais uma vez, de fazer uma grande prova de 500 milhas. Serão quatro semanas de trabalho duro até a largada, mas confiamos que podemos vencer a prova e entrar para a história como um dos vencedores.

 

NdG: Steve, em nome de todos que fazem o site, gostaríamos de agradecer a atenção e a disponibilidade que você nos deu. Felicidades em Indianápolis.

 

Steve Moore: Ok, espero que vocês consigam fazer um bom artigo. Até a próxima.

 

Antes de irmos para a coletiva de imprensa tentamos (digo tentamos porque não foi possível) entrar no pavilhão para registrar o trabalho de desmontagem da equipe KV. Contudo, a produção do evento bloqueou o acesso da Imprensa em geral ao pavilhão, ficando a área restrita aos profissionais de mídia do Grupo Bandeirantes. Foi a única “pisada de bola” que eles deram no evento inteiro... e não precisavam ter feito isso!

 

Coletiva dos brasileiros no final do evento.

 

Apesar do resultado ruim, para todos, Tony Kanaan, Helio Castro Neves e Bia Figueiredo foram ao salão de entrevistas para uma última coletiva de imprensa.

 

 

Tony não escondeu a frustração e, com a mão protegida por uma tala falou da dor – primeiro na mão e nas últimas 20 voltas, no coração – da sensação angustiante de ver o carro parando na reta onde voltas antes ele fez a arquibancada levantar e dando pra ver a reação do público, eximiu de culpa o estrategista e disse que iriam ver qual foi o problema. Lembrou que este foi o estrategista de suas vitórias e que o time ganha junto e perde junto. Explicou que a telemetria no Anhembi sofre muita interferência pela extensão e obstáculos do circuito. Confiante, afirmou que a vitória estava próxima (e estava mesmo!)

 

Bia lamentou o problema no escapamento que simplesmente derreteu o comando do controle do câmbio em uma corrida que ela vinha bem, tinha ganho uma posição e estava andando num ritmo bom até perder as marchas. Bia também resaltou que teve 3 quebras em 4 corridas e que aquilo era muito frustrante, mas que não a desanimaria para Indianápolis e que, deois das 500 milhas,ela ficaria nos EUA para tentar viabilizar mais corridas.

 

 

Helio lamentou, novamente o problema na classificação e o toque que o fez rodar na saída do ‘S’. Comentou que toda a sorte poderia ter mudado se a decisão tomada tivesse sido não parar na última bandeira amarela. O combustível teria dado para ir até o final e ele teria ficado perto do Takuma Sato na relargada. Ainda brincou, bem ao seu estilo, que ele precisava abrir o olho na luta pelo campeonato poeque o ‘japonês’ já tinha aberto... arrancando risadas da plateia.

 

Direcionamos nossa pergunta para o Helio e foi justamente sobre o ‘S’ de São Paulo, que continuou complicado apesar da melhoria. Helio concordou que o trecho melhorou, ficou mais rápido, as zebras mais baixas não jogavam mais o carro contra o muro, mas que ali ainda é um ponto onde se passa um carro por vez e ele sentiu isso na pele e na traseira do carro. Outro ponto que ele salientou foi o da troca do concreto da passarela para a freada no asfalto antes do ‘S’, onde a aderência diminui muito.

 

 

Bem ao estilo brasileiro, de mesmo na adversidade fazer piada, enquanto Tony falava sobre a falta de combustível que tirou suas chances de vencer, Bia Figueiredo perguntou porque ele não parou em um dos postos Ipiranga, com Helio Castro Neves retrucando: ‘ou Shell’. Os jornalistas gargalharam! Tony respondeu perguntando se alguém conhecia algum posto que quisesse patrociná-lo (mais risos) e que da próxima vez, para nos dois!

 

Para Indianápolis, os três foram categóricos na mesma resposta: ter que ir pra ganhar!

 

Depois da coletiva, invadimos o pavilhão e ainda pudemos nos despedir dos mecânicos da KV que foram muito pacientes e parceiros.

 

Assim concluímos mais um artigo da série, por dentro do automobilismo, num trabalho que envolveu quatro integrantes do site, um no local e três à distância. Esperamos que todos apreciem o material produzido e deixamos o convite para, em 2014, conhecermos de perto mais uma categoria.

 

Grande abraço,

 

 

Agradecimentos: A XYZ Live, Casanova Produtora, Grupo Bandeirantes, Equipe KV Racing, NZR Consulting, IMS, Firestone e em especial a Tony Cotman, Chris Jones, Trish Donavan, Steve Moore, Ken Gardner, Mike Kerry, Mauricio Martins Pereira e Rodolpho Siqueira pelo suporte ao nosso trabalho.

 

 

Last Updated ( Monday, 03 June 2013 00:51 )